Pra que fazer um doutorado?

Terminei meu mestrado há alguns anos. Comecei logo depois da graduação, em 2017, defendi em 2019.

Na época, me pareceu uma saída ótima para uma fase de completa indecisão profissional e insegurança acadêmica. Eu estava me formando como economista, mas não tinha a ousadia de me proferir enquanto uma. Precisava estudar mais. Tive bolsa, o que me deu um conforto grande de ter alguma renda, apesar de ainda depender parcialmente dos meus pais. Eu tinha vinte e três anos, e já sentia que era hora de ganhar meu próprio dinheiro.

Hoje, com trinta anos, considero ir pro doutorado. Queria estudar algumas questões que me atormentam dentro dos meus temas de trabalho – educação, trabalho e desenvolvimento econômico – e contribuir com algumas ideias novas, fruto da minha experiência prática associada com mirabolantes ideias que brotam no bailão do meu cérebro e alugam um quarto por lá.

Mas agora, já não tenho muita paciência para ter aulas. Tenho um emprego estável e não preciso de bolsa. E depois de não fazer absolutamente quase nada com o meu título de mestre, eu me pergunto: pra que fazer um doutorado?

Sim, me encontro de novo topada com uma parede de tédio e falta de tesão no trabalho (uma parede de natureza muito diferente da que me levou ao mestrado, inclusive). Mas inserida em um contexto muito diferente, hoje também considero opções diferentes. A pura vontade – não particularmente forte – de estudar seria suficiente para fazer um doutorado?

Fui dar um Google e encontrei uma coluna no Nexo Jornal, com exatamente essa questão: “doutorado, para que te quero?”, que me renovou alguns elementos para considerar. Segundo o texto, a própria existência do doutorado foi concebida como uma preparação para a carreira acadêmica, quase uma mímica da relação de aprendizado das guildas na Idade Média, quando, ao final do seu treinamento, o aprendiz exercia uma função semelhante ao seu mestre. É a ideia de um aprendizado individual com supervisão de um orientador, que te prepara para uma vida de pesquisa e ensino.

Na prática, vagas acadêmicas para lecionar em universidades que remuneram decentemente seus professores estão cada vez mais escassas, e o título de doutor não te garante muita coisa nesse meio. Não que fizesse diferença. Não tenho o desejo de lecionar.

Seguindo a minha pesquisa, encontrei um artigo online da ANPG, Associação Nacional de Pós Graduação, explicando o Doutorado. Uma das últimas seções da matéria pergunta “Como saber se o doutorado é pra você?”.

O texto começa com “Não adianta fazer doutorado apenas para ter o título de doutor” – ideia com a qual consigo me identificar profundamente, então sigamos para a lista.

Determinação e Foco, aptidão para a ciência, visa lecionar. Essas eram as três características citadas. Das três, comungo com uma: aptidão para a ciência. Não quero lecionar, e posso até ter determinação, mas o foco foi embora há anos e anos.

A verdade é que existe o desejo do doutorado. Se não existisse, eu não estaria me empenhando em pensar sobre. Mas há tantas possiblidades – muito mais rentáveis – que podem me tirar dessa parede profissional da qual eu bati, que não me sinto confiante de perseguir esse caminho com muita voracidade.

Fora a preguiça da academia e do ambiente acadêmico, que a partir de uma competitividade exaustiva entre seus membros, torna a universidade e os seus eventos muito mais enfadonhos do que precisariam ser.

Sinto também o peso do meu superego me atormentando com o seu etarismo precoce que me diz que não posso esperar muito para fazer isso, ou vai ser tarde demais, vou ficar velha demais, e não vou ter uso nenhum para o meu título – pois serei velha, amarga e inútil. Com as minhas razões, rio dele. Ele é ridículo, e mais gera ansiedade do que governa minhas decisões.

Meu mestrado foi há anos atrás, mas o que me motivou a fazê-lo, ainda é o que me motiva a considerar um doutorado: o desejo de estudar algo de maneira estruturada, aprender mais e conhecer mais. Eu só não sei se hoje em dia esse é um motivo suficiente para sustentar um desejo dessa envergadura.

Amo as minhas escolhas, mas não acho que fiz as pazes com as minhas renúncias

1h42 da manhã. Estou há horas assistindo, ou melhor – devorando – Sex and The City na Netflix. Por várias razões, sinto uma miríade de sentimentos quando assisto esse seriado. Me sinto incrivelmente perto dessas quatro amigas, e ao mesmo tempo milhas e milhas longe.

Meu marido e meu filho estão dormindo. Até meu cachorro esta dormindo.  De centra forma, eu também estou. Me sinto incrivelmente conectada, invejosa dessa vida cheia de desejos, novidades, festas, animação, saltos altos e aquele cabelo fabuloso da Carrie. Me sinto incrivelmente distante de tudo isso com a minha vida no interior, meu corpo gordo, uma barriga com uma cicatriz de cesárea e cabelos que diariamente são contidos em grampos, rabinhos e presilhas.

De certa forma, como Carrie, estou escrevendo, é verdade. Isso me dá conforto, e me faz eu me sentir mais próxima dessa fantasia. Claro, é uma fantasia – não que a consciência desse fato me deixe menos presa a ela.

Não é uma questão de insatisfação com a minha vida. Talvez, se eu estivesse escrevendo isso no neu diário, e não num post na internet, esse paragrafo não existiria. Mas acho importante colocar isso aqui para dar conta desse caminho e pode voltar ao meu objetivo. Minha vida interiorana é boa. Tenho um marido que me ama, que me respeita, e é completamente recíproco. É meu melhor amigo, e nossas principais brigas têm sido pela falta que essa parte faz, agora que estamos ainda completamente endoidecidos com as responsabilidades da parentalidade. Tenho um filho lindo, que me deixa maluca numa proporção incrivelmente maior do que me traz alegria, mas que eu amo de uma maneira completamente primitiva, instintiva, através de diferentes maneiras, desde que sua chegada foi anunciada com um teste que dizia: “grávida. 2-3 semanas”. Tenho uma casa confortável para morar, minha família perto, e amigos e amigas queridas, que claro, vejo infinitamente menos do que eu gostaria, mas que me são muito caros.

Mas a questão não é a vida que eu tenho agora, mas é a vida que eu não tenho mais,  a vida que eu nunca tive, e a vida que eu gostaria de ter, sem abrir mão da minha atual.

Claro, esse já foi um tema de debate extenso entre eu e Marla, a minha psicóloga (que inclusive tem uma vida muito parecida com a da Carrie – na minha cabeça -, mas os episódios da vida dela são no nordeste brasileiro, e não em Manhattan). Mas é um debate que sempre, ou quase sempre, revolta e revoa sobre a minha necessidade de abraçar o mundo sem abrir mão de nada.

Acho que essa fantasia, essa fic onde eu faço parte de uma história com drama e comédia não literal – alô alívio cômico – sou magra, consigo usar saltos e anda quilômetros, usar maquiagem até quando estou apenas escrevendo em casa, tendo encontros com orgasmos fáceis e sendo incrivelmente bem sucedida no trabalho, enquanto ainda mantenho a minha vida atual, é uma ganancia e um luto não processado das minhas aventuras vividas, promessas e expectativas sociais e desejos alguns recalcados.

Uma psicóloga que eu tive há alguns anos, me disse uma coisa uma vez que é muito óbvia, mas que ficou comigo ao longo dos anos, pelo jeito e pelo olhar marcado que ela me lançou na hora: cada escolha, uma renúncia.

Amo as minhas escolhas, mas não acho que fiz as pazes com as minhas renúncias (e talvez não queira fazer).

(Citação)

“Adam Smith é frequentemente citado, mas raramente lido. Uma inspeção dos seus escritos, feita mais de perto, revela um grau de nuance e uma bateria de reservas que substancialmente qualificam um entusiasmo delirante para as bênçãos do capitalismo.”

Esping-Andersen, G. The Three Worlds of Welfare Capitalism, p. 33. Tradução livre.

Desejo que o atropelamento vire atravessamento

 

Há um ano, mais ou menos, eu escrevi esse texto. Ainda expressa emoções com as quais me relaciono intimamente. Meu bebê já não é mais um bebê. Já é uma pequena criança, que me atravessa todas as manhãs quando me dá um beijo de bom dia, e um sorriso completamente amoroso quando me vê chegar do trabalho.
Aos poucos, o atropelamento vai virando atravessamento.

    Agora de manhã meu marido ficou cuidando do bebê, e eu fui fazer outras coisas da vida. Depois de uma boa hora gasta deitada na cama, vendo o feed do Instagram – inclusive posts que nem lembro mais do que se tratavam* – levantei para pintar meu cabelo, retocar a raiz que já estava grande demais para o meu gosto. Enquanto a tinta tem seu tempo de ação, resolvo olhar para o buraco negro que está a minha parte do guarda-roupas. Roupas que não servem, roupas que precisam de reforma, roupas que não dizem mais quem eu sou.

    Logo desisto. Não estou pronta para fazer esse filtro. Não me sinto pronta para assumir o meu eu pós maternidade. Esses dias, estava refletindo na terapia a diferença entre se sentir atropelada e se sentir atravessada pelo meu filho. Ainda me custa falar “maternidade”, sinto como algo pesado demais para lidar. Apesar de se configurar todos os dias, e ser tão presente e tão real. Depois de várias semanas de viroses respiratórias, pneumonia, sinusite e algumas idas a médicos e farmácias, me sentia completamente atropelada pelo meu filho e pela maternidade. Atropelada mesmo, sem rumo, sem condições de aguentar mais. Mas aguentando. Mas continuando a levantar, dar remédios, medir febre, usar espaçador, alimentar, fazer dormir, cuidar. Cuidar dos outros custa caro. Ainda mais quando esse cuidado está repleto de medo de perder. Noto que meu filho é minha força e minha fraqueza, simultaneamente. É pelo meu amor a ele que eu continuo a nadar, mesmo querendo ficar à deriva. Isso parece romântico demais pra mim, e por isso me causa um certo desconforto. Existe um modo de expressar esse sentimento sem parecer algo místico? Porque já adianto: não tem nada de místico ou sublime, ou idealizado nesse sentimento. É algo completamente concreto. É algo que se faz presente todos os dias, e que observo na prática do cuidado diário que ele me chama para exercer.

Parentalidade é trabalho. Contínuo. É esforço e doação. Tem suas recompensas, como o vulcão inexplicável de sentimentos que me tomam quando vejo a boca do meu filho devorar um pedaço de mamão.

    É muito trabalho, e as recompensas são simples: um sorriso, uma soneca no colo, uma boca cheia de fruta. Um simples que enche os olhos e coração de uma maneira completamente primitiva e irracional.

    Penso em como esse nível de cuidado e dependência não vai ser pra sempre. Afinal de contas, meu filho vai crescer, se tornar um adulto, e seus dias de bebê e criança ficarão apenas como memórias. Não desejo que ele cresça logo, para que meu trabalho diminua. Desejo mesmo que eu tenha mais tranquilidade para lidar com esse trabalho. Desejo aprender a transformar atropelamento em atravessamento. 

* – Essa é uma percepção que tenho tido, repetidamente, há uns dias.

A primeira

A primeira é sempre difícil. A primeira vez, a primeira aula, o primeiro artigo, o primeiro dia de trabalho, o primeiro post.

A primeira vez que peguei estrada de moto, também foi difícil. Achei que ia morrer. Eu já andava de moto pela cidade há mais de um ano, e já estava bem confortável com a minha prática urbana. Mas enfrentar a estrada, significaria andar a 100 km/h, 110 km/h de maneira constante, além de dividir espaço com carros, caminhões além de mais instabilidade pelo vento e consequências muito mais sérias se houvesse um acidente.

A coragem veio da junção entre o desejo e a necessidade. Andar de moto numa rodovia, pra mim, significava um importante marco de liberdade – vento no rosto, ousadia pra arriscar. Mas de maneira prática, esse desejo por essa sensação tão específica de liberdade só se realizou quando a necessidade bateu: eu precisava estar na aula da pós-graduação, e meu filho precisava ir na fonoaudióloga.

O primeiro post também vem da união entre desejo e necessidade: o desejo de fazer um contraponto aos formatos cada vez mais apressados de entretenimento online, somado à necessidade de autoexpressão e afirmação de si mesma. Uma afirmação que também é desejante, especialmente quando responde a uma necessidade de conseguir estar no presente, entendendo que a pessoa que sou hoje, não fui ontem e não serei amanhã. Mas sou eu, hoje.