Quatro pontos na cabeça, uma história que eu queria não saber contar

Fui assaltada à mão armada há cerca de uma semana.

Estacionei o carro numa rua tranquila, com algum movimento e comércio. Estava indo para a faculdade, aula de Direito Constitucional II. É um dos meus professores favoritos, estava chegando logo antes do horário de início. Vou poder escolher minha cadeira como gosto, me acomodar da maneira que eu gosto. Estacionei, desliguei o carro. As portas destravaram e comecei a pegar minhas coisas para sair. Vejo um colega de sala passar, me sinto tranquila. Do mais absoluto nada, minha porta abre. Por um milissegundo, achei que era meu colega, fazendo uma graça. Esse milissegundo durou realmente muito pouco, quando olhei pro cano de uma arma sendo apontada pra mim. “Vai pro passageiro, cala boca”. Fui tomada pelo desespero. Tentei sair do carro, comecei a gritar “Socorro, Socorro! Ah, socorro!”. Senti a dureza do aço na pancada da cabeça. Eu só queria fugir, saí correndo. De salto alto, correr desesperadamente é difícil. Outra pancada nas costas, caí no chão ainda gritando “Socorro! Ah, socorro!”. Senti sangue escorrendo, pessoas apareceram para me ajudar e eu, perdida, entre o desespero da fuga e entender o que estava acontecendo. Olhei para trás, ele entrou e saiu do carro umas duas vezes, abriu a porta onde fica a cadeirinha do filho. Não achou nada.

Ele era um homem magro, estatura mediana, cabelo bem curto, provavelmente raspado. Tinha idade média, nem muito velho nem jovem. É tudo o que lembro.

Depois que eu saí, sendo socorrida por pessoas queridas que me ajudaram mais do que eu poderia contar, ele fugiu. Descobri, em seguida, que não roubou o carro. Não roubou minha bolsa. Não roubou documentos. Roubou apenas meu celular. Foram quatro pontos na cabeça, um trauma e um mau agouro para a vida inteira, por causa de um celular.

No dia seguinte, começaram os procedimentos: Boletim de Ocorrência na Delegacia, exame de corpo de delito na Polícia Científica, conseguir um novo chip de celular, comprar um celular novo. Entre as esperas, os papéis e o buraco financeiro deixados, terminei o dia fazendo o que faço de melhor – resolvendo problemas de ordem prática.

A faculdade me ligou, prestou solidariedade, me disse que havia identificado quem tinha sido, e que tudo estava sendo encaminhado às autoridades, como deveria ser feito. Agradeci. Por dentro, me sentia completamente exposta e insegura. De algum modo, tudo aquilo me parecia inócuo.

A Justiça penal é pública e coletiva. Aquele homem não tinha o direito de fazer o que fez, e representa, sim, um perigo à sociedade. Saber quem foi e fazer ele passar pelo devido processo legal me parece de fato importante e socialmente relevante.

Individualmente, no entanto, pouco me adiantou saber que o acontecimento tinha sido solucionado.

Todas as pessoas queridas me perguntavam se eu estava bem. Não, não estava. Sentia então me olharem com pena, dor e confusão sobre o que dizer ou fazer. Eu, ainda mais confusa que elas, usava uma fala genérica sobre ter paciência e saber que as coisas iam melhorar.

Uma semana passou. Meus pontos na cabeça secaram. Amanhã posso tirar eles, com alguma sorte e mais um pouco de espera.

Ainda não voltei para a faculdade. Os olhares de pena foram substituídos por uma preocupação apressada para que eu volte à minha rotina. Eu sigo entre um desejo de nunca mais voltar e um medo de nunca mais voltar.

Mas segue o efeito da ação daquele homem, que tirou meu celular, e me deu quatro pontos, alguns hematomas e uma invasão que talvez demora mais do que dez dias para secar.

A primeira

A primeira é sempre difícil. A primeira vez, a primeira aula, o primeiro artigo, o primeiro dia de trabalho, o primeiro post.

A primeira vez que peguei estrada de moto, também foi difícil. Achei que ia morrer. Eu já andava de moto pela cidade há mais de um ano, e já estava bem confortável com a minha prática urbana. Mas enfrentar a estrada, significaria andar a 100 km/h, 110 km/h de maneira constante, além de dividir espaço com carros, caminhões além de mais instabilidade pelo vento e consequências muito mais sérias se houvesse um acidente.

A coragem veio da junção entre o desejo e a necessidade. Andar de moto numa rodovia, pra mim, significava um importante marco de liberdade – vento no rosto, ousadia pra arriscar. Mas de maneira prática, esse desejo por essa sensação tão específica de liberdade só se realizou quando a necessidade bateu: eu precisava estar na aula da pós-graduação, e meu filho precisava ir na fonoaudióloga.

O primeiro post também vem da união entre desejo e necessidade: o desejo de fazer um contraponto aos formatos cada vez mais apressados de entretenimento online, somado à necessidade de autoexpressão e afirmação de si mesma. Uma afirmação que também é desejante, especialmente quando responde a uma necessidade de conseguir estar no presente, entendendo que a pessoa que sou hoje, não fui ontem e não serei amanhã. Mas sou eu, hoje.