Me vesti e detestei as minhas pernas.

escolhi um vestido vermelho estampado, um colete de tricô para usar por cima, uma jaqueta. coloquei meu tênis all star e fui checar no espelho. detestei minhas pernas. estão inchadas, passei boa parte do dia de pé, e por causa e um lipedema que me acompanha desde sempre, elas incham e ficam tortas, deformadas.

depois de menstruar, engordar, ter um filho, o lipedema piorou muito. depois de não fazer exercício físico, piorou muito. eu piorei muito.

o vestido é vermelho, de comprimento midi, rodado, com mangas princesa três quartos, estampado com flores brancas pequenininhas. Não tem decote, tem uma prega central no busto e talvez essa seja a parte dele que mais me desagrada. Apesar disso, gosto dele como o vestido vermelho estampado. tenho ele há anos, e já serviu pra tudo: desde fantasia de halloween até encontro com orientadora.

mas hoje ele me incomodou. sinto ele apertado nas costas, nas mangas. me sinto desconfortável. hoje tudo está desconfortável.

não é a primeira vez que minhas pernas me incomodam. tenho algumas partes do corpo que não particularmente gosto – aos 32 anos aprendi a não me odiar por isso, pelo menos até a página dois. porque no caminho do trabalho, eu queria mesmo era me punir fisicamente, talvez com um apertão, com um arranhão, um tapa. alguma sensação física, bruta, que me tirasse do sofrimento psicológico e me desse uma razão para chorar, de fato.

minhas pernas são gordas e deformadas, e me sinto triste. um dia eu já me senti um lixo quando sentia incômodo com o meu corpo. não mais. hoje reconheço a tristeza de carregar comigo a impossibilidade de não ser completamente perfeita.

ontem e fui, de boa vontade, conversar com um professor sobre minha tese de doutorado. achei que ele podia me ajudar, já que mesmo tendo premissas ideológicas e referências diferentes das minhas, é um dos principais pesquisadores sobre o tema. eu estava parcialmente certa – ele ajudou. Mas me custou uma boa dose de paciência e tolerância, para sustentar as duas horas de conversa que ele resolveu transformar nem monólogo de você está equivocada misturado com veja, não me entenda mal. Ao final da conversa, ele criticou até mesmo o próprio trabalho, e disse que tudo o que fazemos na literatura nacional sobre o assunto era meio ruim. melhor mesmo era buscar as referências internacionais.

admito que minha neurodivergência me ajuda muito nessas horas. eu quase nunca percebo quando alguém me trata meio mal, ou é um tanto babaca comigo. a neuropsicóloga disse que tenho uma ingenuidade de acreditar nas pessoas, e isso pode me deixar mais propícia e vulnerável à golpes. mas se alguém nem me conhece, por que ela mentiria para mim?

dito isso, minha ingenuidade me levou a acreditar que as duas horas que aquele professor tinha disponibilizado para conversar comigo, eram prova de uma simpatia que eu custei a achar durante a conversa. admito que só percebi que ele não tinha sido tão simpático assim, algumas horas depois do ocorrido. nada grave, mas demorar pra perceber isso me incomodou profundamente.

me deslocou de um jeito que chegou até às minhas pernas, que são do jeito que são há muito tempo, mas hoje – especialmente hoje – me incomodaram mais do que eu pude sustentar.

para sair de casa, coloquei uma calça jeans preta estonada, de pernas largas. me senti maneira. mas também sei que me escondi.

sobre a reunião, reclamei para alguns amigos, tirei o melhor da situação e segui a vida. pelo menos ele criticou meu projeto, e não as minhas pernas deformadas.

Pra que fazer um doutorado?

Terminei meu mestrado há alguns anos. Comecei logo depois da graduação, em 2017, defendi em 2019.

Na época, me pareceu uma saída ótima para uma fase de completa indecisão profissional e insegurança acadêmica. Eu estava me formando como economista, mas não tinha a ousadia de me proferir enquanto uma. Precisava estudar mais. Tive bolsa, o que me deu um conforto grande de ter alguma renda, apesar de ainda depender parcialmente dos meus pais. Eu tinha vinte e três anos, e já sentia que era hora de ganhar meu próprio dinheiro.

Hoje, com trinta anos, considero ir pro doutorado. Queria estudar algumas questões que me atormentam dentro dos meus temas de trabalho – educação, trabalho e desenvolvimento econômico – e contribuir com algumas ideias novas, fruto da minha experiência prática associada com mirabolantes ideias que brotam no bailão do meu cérebro e alugam um quarto por lá.

Mas agora, já não tenho muita paciência para ter aulas. Tenho um emprego estável e não preciso de bolsa. E depois de não fazer absolutamente quase nada com o meu título de mestre, eu me pergunto: pra que fazer um doutorado?

Sim, me encontro de novo topada com uma parede de tédio e falta de tesão no trabalho (uma parede de natureza muito diferente da que me levou ao mestrado, inclusive). Mas inserida em um contexto muito diferente, hoje também considero opções diferentes. A pura vontade – não particularmente forte – de estudar seria suficiente para fazer um doutorado?

Fui dar um Google e encontrei uma coluna no Nexo Jornal, com exatamente essa questão: “doutorado, para que te quero?”, que me renovou alguns elementos para considerar. Segundo o texto, a própria existência do doutorado foi concebida como uma preparação para a carreira acadêmica, quase uma mímica da relação de aprendizado das guildas na Idade Média, quando, ao final do seu treinamento, o aprendiz exercia uma função semelhante ao seu mestre. É a ideia de um aprendizado individual com supervisão de um orientador, que te prepara para uma vida de pesquisa e ensino.

Na prática, vagas acadêmicas para lecionar em universidades que remuneram decentemente seus professores estão cada vez mais escassas, e o título de doutor não te garante muita coisa nesse meio. Não que fizesse diferença. Não tenho o desejo de lecionar.

Seguindo a minha pesquisa, encontrei um artigo online da ANPG, Associação Nacional de Pós Graduação, explicando o Doutorado. Uma das últimas seções da matéria pergunta “Como saber se o doutorado é pra você?”.

O texto começa com “Não adianta fazer doutorado apenas para ter o título de doutor” – ideia com a qual consigo me identificar profundamente, então sigamos para a lista.

Determinação e Foco, aptidão para a ciência, visa lecionar. Essas eram as três características citadas. Das três, comungo com uma: aptidão para a ciência. Não quero lecionar, e posso até ter determinação, mas o foco foi embora há anos e anos.

A verdade é que existe o desejo do doutorado. Se não existisse, eu não estaria me empenhando em pensar sobre. Mas há tantas possiblidades – muito mais rentáveis – que podem me tirar dessa parede profissional da qual eu bati, que não me sinto confiante de perseguir esse caminho com muita voracidade.

Fora a preguiça da academia e do ambiente acadêmico, que a partir de uma competitividade exaustiva entre seus membros, torna a universidade e os seus eventos muito mais enfadonhos do que precisariam ser.

Sinto também o peso do meu superego me atormentando com o seu etarismo precoce que me diz que não posso esperar muito para fazer isso, ou vai ser tarde demais, vou ficar velha demais, e não vou ter uso nenhum para o meu título – pois serei velha, amarga e inútil. Com as minhas razões, rio dele. Ele é ridículo, e mais gera ansiedade do que governa minhas decisões.

Meu mestrado foi há anos atrás, mas o que me motivou a fazê-lo, ainda é o que me motiva a considerar um doutorado: o desejo de estudar algo de maneira estruturada, aprender mais e conhecer mais. Eu só não sei se hoje em dia esse é um motivo suficiente para sustentar um desejo dessa envergadura.