MC Fioti no Google Classroom

Esse semestre estou fazendo uma aula na pós-graduação como aluna especial, com um grupo de alunos intercambistas. Há alunos de várias nacionalidades: Turquia, Russia, Botsuana, Namibia, Nigeria, além de mais 2 brasileiros.

Uma das atividades da matéria é uma apresentação cultural sobre seu país, para que os outros alunos conheçam um pouco sobre as diferentes culturas presentes na sala. Como somos três brasileiros, decidi fazer uma apresentação mais pontual, mais específica, sobre algo que ilustrasse uma das coisas que eu mais admiro no Brasil: as pessoas.

Mas eu queria algo que fosse divertido. Economia, normalmente, trata de assuntos muito sisudos. Decidi fazer uma apresentação sobre Bumbum Tan Tan, o hit do MC Fioti, e sua versão sobre vacinação, com clipe gravado no Instituto Butantã.

Eu gosto de pensar que essa é uma das minhas mais caras habilidades: trazer elementos da cultura popular para as discussões acadêmicas. Uma vez durante a graduação, apresentando um seminário sobre a crise financeira de 2008, eu lancei um:

“aí foi que o barraco desaboou, nesse que o barco se perdeeu…”

Poucas pessoas pegaram a referência. Esse é quase sempre o desafio: quando você coloca referências aparentemente deslocadas de um ambiente para outro, você tem que se acostumar com os olhares estranhos, confusos e até mesmo repreensivos. Particularmente, eu acho divertido. Eu gosto da sensação de profanar a seriedade de uma apresentação acadêmica.

[edit] pós apresentação

Muito menos animada que o previsto, a apresentação não recebeu apenas olhares confusos, mas também olhares de profundo desconforto.

Amei, flop 2.

Pra que fazer um doutorado?

Terminei meu mestrado há alguns anos. Comecei logo depois da graduação, em 2017, defendi em 2019.

Na época, me pareceu uma saída ótima para uma fase de completa indecisão profissional e insegurança acadêmica. Eu estava me formando como economista, mas não tinha a ousadia de me proferir enquanto uma. Precisava estudar mais. Tive bolsa, o que me deu um conforto grande de ter alguma renda, apesar de ainda depender parcialmente dos meus pais. Eu tinha vinte e três anos, e já sentia que era hora de ganhar meu próprio dinheiro.

Hoje, com trinta anos, considero ir pro doutorado. Queria estudar algumas questões que me atormentam dentro dos meus temas de trabalho – educação, trabalho e desenvolvimento econômico – e contribuir com algumas ideias novas, fruto da minha experiência prática associada com mirabolantes ideias que brotam no bailão do meu cérebro e alugam um quarto por lá.

Mas agora, já não tenho muita paciência para ter aulas. Tenho um emprego estável e não preciso de bolsa. E depois de não fazer absolutamente quase nada com o meu título de mestre, eu me pergunto: pra que fazer um doutorado?

Sim, me encontro de novo topada com uma parede de tédio e falta de tesão no trabalho (uma parede de natureza muito diferente da que me levou ao mestrado, inclusive). Mas inserida em um contexto muito diferente, hoje também considero opções diferentes. A pura vontade – não particularmente forte – de estudar seria suficiente para fazer um doutorado?

Fui dar um Google e encontrei uma coluna no Nexo Jornal, com exatamente essa questão: “doutorado, para que te quero?”, que me renovou alguns elementos para considerar. Segundo o texto, a própria existência do doutorado foi concebida como uma preparação para a carreira acadêmica, quase uma mímica da relação de aprendizado das guildas na Idade Média, quando, ao final do seu treinamento, o aprendiz exercia uma função semelhante ao seu mestre. É a ideia de um aprendizado individual com supervisão de um orientador, que te prepara para uma vida de pesquisa e ensino.

Na prática, vagas acadêmicas para lecionar em universidades que remuneram decentemente seus professores estão cada vez mais escassas, e o título de doutor não te garante muita coisa nesse meio. Não que fizesse diferença. Não tenho o desejo de lecionar.

Seguindo a minha pesquisa, encontrei um artigo online da ANPG, Associação Nacional de Pós Graduação, explicando o Doutorado. Uma das últimas seções da matéria pergunta “Como saber se o doutorado é pra você?”.

O texto começa com “Não adianta fazer doutorado apenas para ter o título de doutor” – ideia com a qual consigo me identificar profundamente, então sigamos para a lista.

Determinação e Foco, aptidão para a ciência, visa lecionar. Essas eram as três características citadas. Das três, comungo com uma: aptidão para a ciência. Não quero lecionar, e posso até ter determinação, mas o foco foi embora há anos e anos.

A verdade é que existe o desejo do doutorado. Se não existisse, eu não estaria me empenhando em pensar sobre. Mas há tantas possiblidades – muito mais rentáveis – que podem me tirar dessa parede profissional da qual eu bati, que não me sinto confiante de perseguir esse caminho com muita voracidade.

Fora a preguiça da academia e do ambiente acadêmico, que a partir de uma competitividade exaustiva entre seus membros, torna a universidade e os seus eventos muito mais enfadonhos do que precisariam ser.

Sinto também o peso do meu superego me atormentando com o seu etarismo precoce que me diz que não posso esperar muito para fazer isso, ou vai ser tarde demais, vou ficar velha demais, e não vou ter uso nenhum para o meu título – pois serei velha, amarga e inútil. Com as minhas razões, rio dele. Ele é ridículo, e mais gera ansiedade do que governa minhas decisões.

Meu mestrado foi há anos atrás, mas o que me motivou a fazê-lo, ainda é o que me motiva a considerar um doutorado: o desejo de estudar algo de maneira estruturada, aprender mais e conhecer mais. Eu só não sei se hoje em dia esse é um motivo suficiente para sustentar um desejo dessa envergadura.