A ideia de ler é mais interessante que a leitura.

Eu tenho um sério problema com os livros. Trabalho com pesquisa, então a leitura é tarefa diária. Seja pontual, como artigos, relatórios ou notícias ou alguma leitura de mais fôlego, como um livro de temática relevante.

Dito isso, eu achava que detestava ler. E detestava mesmo. Não li todos os livros do vestibular. Talvez um ou dois, no máximo. Grande sertão veredas? Iracema? Passei longe. Quando cheguei na faculdade, li muito. Diversos clássicos da economia, já que meus professores preferiam que lêssemos autores no original. Não peguei gosto.

A leitura pra mim, então, sempre foi parte do processo de aprendizagem e fonte de informações. Não lia pelo ato da leitura, lia pela informação.

A questão é que, tendo essa opinião sobre a leitura, não consigo me haver com os livros. Olho para as opções, vejo vários livros cujo tema me interessa: economia, filosofia, ciências sociais. História não é muito pra mim. Um ou outro raro de alguma psicanalista. O meu problema não é ter interesse – é conseguir ler sem dormir.

A leitura começa, até é interessante. Mas logo fico cansada. Desinteressada. Desisto. Durmo com o livro na mão.

A ideia de ler é mais interessante do que a realidade da leitura.

Claro, já li muita coisa interessante. Claro, já tentei ler romances. Me disseram, certa vez, que são mais palatáveis. De fato, são. Meu último foi Em agosto nos vemos, do Gabriel García Marquez. Li no aplicativo do Kindle, pelo celular. É um ótimo antídoto para o uso constante de redes sociais. Gosto dos romances que me fazem pensar sobre a experiência da existência humana.

Mas sou péssima para escolhê-los. Quando vou à livraria, além de ter a habilidade de achar apenas livros que custem 80 reais (ou mais, inexplicavelmente), me atraio apenas por aqueles cuja temática parece fabulosa. Mas que não cativam o esforço da leitura. E me fazem dormir. O último desses foi um muito interessante, chamado Humanamente Possível, da Sarah Bakewell, que traça toda a história e personagens do pensamento humanista. O início foi empolgante. A leitura era boa, fluía. Tinha comprado o livro físico, que por mais gostoso que seja segurar em mãos e virar páginas físicas, com a possibilidade de fazer anotações nas margens, é um inconveniente. Precisaria levar ele para todo o canto, e ele é relativamente volumoso para caber na minha bolsa. Li algo como 50 páginas e nunca mais. Está lá, ao lado da minha cabeceira de cama. Esperando minha boa vontade de pegar e ler.

Confesso que quanto menos o livro me faz pensar, menos ele me interessa. Em romances, quanto menos me identifico com a protagonista ou alguma personagem importante, menor é meu interesse também. Acho que isso é parte narcísico e parte desejo de compreensão. Só realmente consigo compreender se me identifico. Não é assim com tudo? Medimos o mundo com a única régua possível; a nossa própria régua.

Estou ficando mais velha, ano passado virei os meus 30 anos. Aos 20 eu não lia e gostava de falar que não gostava de ler: era desconcertante para as pessoas, que geralmente me olhavam como alguém inteligente, não conseguirem entender como era possível eu falar um absurdo daqueles. Eu me divertia.

Agora aos 30, começo a me interessar mais pela leitura. Mas ainda não me desvinculei de uma visão utilitarista. Leio porque gosto de aprender e compreender o mundo, do meu próprio jeito. Leio porque lendo me encho de novas coisas para pensar e considerar. Leio porque preciso que meu entretenimento aconteça em lugares outros que a tela da TV ou do celular. Ainda que a minha leitura aconteça na tela de um kindle ou de um aplicativo.

Sinceramente, não tenho um bom parágrafo de conclusão. Sigo com as inquietações, tentando me entender com as palavras – lidas, escritas e faladas.

Pra que fazer um doutorado?

Terminei meu mestrado há alguns anos. Comecei logo depois da graduação, em 2017, defendi em 2019.

Na época, me pareceu uma saída ótima para uma fase de completa indecisão profissional e insegurança acadêmica. Eu estava me formando como economista, mas não tinha a ousadia de me proferir enquanto uma. Precisava estudar mais. Tive bolsa, o que me deu um conforto grande de ter alguma renda, apesar de ainda depender parcialmente dos meus pais. Eu tinha vinte e três anos, e já sentia que era hora de ganhar meu próprio dinheiro.

Hoje, com trinta anos, considero ir pro doutorado. Queria estudar algumas questões que me atormentam dentro dos meus temas de trabalho – educação, trabalho e desenvolvimento econômico – e contribuir com algumas ideias novas, fruto da minha experiência prática associada com mirabolantes ideias que brotam no bailão do meu cérebro e alugam um quarto por lá.

Mas agora, já não tenho muita paciência para ter aulas. Tenho um emprego estável e não preciso de bolsa. E depois de não fazer absolutamente quase nada com o meu título de mestre, eu me pergunto: pra que fazer um doutorado?

Sim, me encontro de novo topada com uma parede de tédio e falta de tesão no trabalho (uma parede de natureza muito diferente da que me levou ao mestrado, inclusive). Mas inserida em um contexto muito diferente, hoje também considero opções diferentes. A pura vontade – não particularmente forte – de estudar seria suficiente para fazer um doutorado?

Fui dar um Google e encontrei uma coluna no Nexo Jornal, com exatamente essa questão: “doutorado, para que te quero?”, que me renovou alguns elementos para considerar. Segundo o texto, a própria existência do doutorado foi concebida como uma preparação para a carreira acadêmica, quase uma mímica da relação de aprendizado das guildas na Idade Média, quando, ao final do seu treinamento, o aprendiz exercia uma função semelhante ao seu mestre. É a ideia de um aprendizado individual com supervisão de um orientador, que te prepara para uma vida de pesquisa e ensino.

Na prática, vagas acadêmicas para lecionar em universidades que remuneram decentemente seus professores estão cada vez mais escassas, e o título de doutor não te garante muita coisa nesse meio. Não que fizesse diferença. Não tenho o desejo de lecionar.

Seguindo a minha pesquisa, encontrei um artigo online da ANPG, Associação Nacional de Pós Graduação, explicando o Doutorado. Uma das últimas seções da matéria pergunta “Como saber se o doutorado é pra você?”.

O texto começa com “Não adianta fazer doutorado apenas para ter o título de doutor” – ideia com a qual consigo me identificar profundamente, então sigamos para a lista.

Determinação e Foco, aptidão para a ciência, visa lecionar. Essas eram as três características citadas. Das três, comungo com uma: aptidão para a ciência. Não quero lecionar, e posso até ter determinação, mas o foco foi embora há anos e anos.

A verdade é que existe o desejo do doutorado. Se não existisse, eu não estaria me empenhando em pensar sobre. Mas há tantas possiblidades – muito mais rentáveis – que podem me tirar dessa parede profissional da qual eu bati, que não me sinto confiante de perseguir esse caminho com muita voracidade.

Fora a preguiça da academia e do ambiente acadêmico, que a partir de uma competitividade exaustiva entre seus membros, torna a universidade e os seus eventos muito mais enfadonhos do que precisariam ser.

Sinto também o peso do meu superego me atormentando com o seu etarismo precoce que me diz que não posso esperar muito para fazer isso, ou vai ser tarde demais, vou ficar velha demais, e não vou ter uso nenhum para o meu título – pois serei velha, amarga e inútil. Com as minhas razões, rio dele. Ele é ridículo, e mais gera ansiedade do que governa minhas decisões.

Meu mestrado foi há anos atrás, mas o que me motivou a fazê-lo, ainda é o que me motiva a considerar um doutorado: o desejo de estudar algo de maneira estruturada, aprender mais e conhecer mais. Eu só não sei se hoje em dia esse é um motivo suficiente para sustentar um desejo dessa envergadura.