Amo as minhas escolhas, mas não acho que fiz as pazes com as minhas renúncias

1h42 da manhã. Estou há horas assistindo, ou melhor – devorando – Sex and The City na Netflix. Por várias razões, sinto uma miríade de sentimentos quando assisto esse seriado. Me sinto incrivelmente perto dessas quatro amigas, e ao mesmo tempo milhas e milhas longe.

Meu marido e meu filho estão dormindo. Até meu cachorro esta dormindo.  De centra forma, eu também estou. Me sinto incrivelmente conectada, invejosa dessa vida cheia de desejos, novidades, festas, animação, saltos altos e aquele cabelo fabuloso da Carrie. Me sinto incrivelmente distante de tudo isso com a minha vida no interior, meu corpo gordo, uma barriga com uma cicatriz de cesárea e cabelos que diariamente são contidos em grampos, rabinhos e presilhas.

De certa forma, como Carrie, estou escrevendo, é verdade. Isso me dá conforto, e me faz eu me sentir mais próxima dessa fantasia. Claro, é uma fantasia – não que a consciência desse fato me deixe menos presa a ela.

Não é uma questão de insatisfação com a minha vida. Talvez, se eu estivesse escrevendo isso no neu diário, e não num post na internet, esse paragrafo não existiria. Mas acho importante colocar isso aqui para dar conta desse caminho e pode voltar ao meu objetivo. Minha vida interiorana é boa. Tenho um marido que me ama, que me respeita, e é completamente recíproco. É meu melhor amigo, e nossas principais brigas têm sido pela falta que essa parte faz, agora que estamos ainda completamente endoidecidos com as responsabilidades da parentalidade. Tenho um filho lindo, que me deixa maluca numa proporção incrivelmente maior do que me traz alegria, mas que eu amo de uma maneira completamente primitiva, instintiva, através de diferentes maneiras, desde que sua chegada foi anunciada com um teste que dizia: “grávida. 2-3 semanas”. Tenho uma casa confortável para morar, minha família perto, e amigos e amigas queridas, que claro, vejo infinitamente menos do que eu gostaria, mas que me são muito caros.

Mas a questão não é a vida que eu tenho agora, mas é a vida que eu não tenho mais,  a vida que eu nunca tive, e a vida que eu gostaria de ter, sem abrir mão da minha atual.

Claro, esse já foi um tema de debate extenso entre eu e Marla, a minha psicóloga (que inclusive tem uma vida muito parecida com a da Carrie – na minha cabeça -, mas os episódios da vida dela são no nordeste brasileiro, e não em Manhattan). Mas é um debate que sempre, ou quase sempre, revolta e revoa sobre a minha necessidade de abraçar o mundo sem abrir mão de nada.

Acho que essa fantasia, essa fic onde eu faço parte de uma história com drama e comédia não literal – alô alívio cômico – sou magra, consigo usar saltos e anda quilômetros, usar maquiagem até quando estou apenas escrevendo em casa, tendo encontros com orgasmos fáceis e sendo incrivelmente bem sucedida no trabalho, enquanto ainda mantenho a minha vida atual, é uma ganancia e um luto não processado das minhas aventuras vividas, promessas e expectativas sociais e desejos alguns recalcados.

Uma psicóloga que eu tive há alguns anos, me disse uma coisa uma vez que é muito óbvia, mas que ficou comigo ao longo dos anos, pelo jeito e pelo olhar marcado que ela me lançou na hora: cada escolha, uma renúncia.

Amo as minhas escolhas, mas não acho que fiz as pazes com as minhas renúncias (e talvez não queira fazer).