como ser humana, e não relações públicas de si mesma?

A questão da performance pra mim sempre foi pauta conjunta da construção e afirmação da minha personalidade e da minha identidade. Se sou muitas, e tenho muitas caras e trejeitos e os mostro convenientemente de acordo com os interlocutores com os quais eu me relaciono, estou sendo ou performando?

Apesar de ser a mesma pessoa, se eu pedir para outras pessoas traçarem o que elas acham quem eu sou, tenho certeza que consigo algumas respostas muito diferentes, e certamente contraditórias. Para alguns, posso ser inocente e tímida. Para outros, essas duas palavras não podiam estar mais distantes do meu jeito de ser.

Claro, a percepção das pessoas sobre você não é um produto direto das suas ações, palavras e interações com elas, já que também reflete quem elas próprias são, como enxergam o mundo e os outros. Mas para além disso, fazendo um esforço de talvez sublimar esse viés de qualidade de informação – como se fosse possível – eu reconheço que a forma como eu me expresso e performo para cada interlocutor é diferente.

Já foi uma crise identitária pra mim: quando mais nova, na longa transição da adolescência para a vida adulta, eu me acostumava tanto a performar de acordo com as expectativas do outro sobre mim, que me senti perdida e sufocada, sem saber, de verdade, quem eu era.

Os anos foram passando, terapia rolando, me reconheço enquanto indivíduo. Apesar da pouquíssima habilidade em lidar com a minha própria subjetividade, a minha real identidade vem dela. Brota dessa subjetividade como as folhas brotam de uma batata doce, se você mergulhar na água.

E aí cada folha é diferente, assim como eu sou diferente nas várias situações e ocasiões na vida. Sim, isso é esperado. Sim, isso está pacificado. Mas e quando, ao invés de apenas deixar as diferentes folhas existirem em seus diferentes formatos e tamanhos, eu venho e aparo as arestas delas, tentando performar uma exatidão e contornos bem definidos, assim como performar identidades bem acabadas, numa necessidade profunda de amor e aceitação? Se esse amor e aceitação vêm, como saber se eles vêm pela substância da folha (a parte da expressão da subjetividade que eu não posso controlar) ou pelo formato cuidadosamente recortado (a performance)?

É razoável eu requisitar o mesmo gosto e amor se não ofereço a mesma performance? Porque ultimamente, o desejo tem sido o da expressão radical. Não no sentido de extremado, mas no sentido de original. Minha folha radical é aquela que brota sem recortes. Sem controles, sem operar intencionalmente de acordo com a minha percepção e antecipação dos desejos alheios.

Até porque, penso eu, se me recorto a partir dos desejos alheios, como reconhecer e exercer o meu próprio desejo? Como conseguir sustentar a minha existência de identidade e expressão, se me preocupo em performance orientada para os resultados? Como ser humana e reconhecer a humanidade em mim – e nos outros – se oriento a minha existência por uma lógica de performance e resultado?

Sou certamente uma mulher do meu tempo. Mas se eu olhar para o meu próprio tempo, como ser humana, e não relações públicas de si mesma?