Confiar no próprio cérebro

O último post foi em janeiro. Sim, eu sei. Não, não vou me explicar sobre isso.

Inclusive, eu estava pensando esses dias sobre confiar no próprio cérebro. Eu entrei numa fase de Alanis Morissette faz algumas boas semanas. Completamente obcecada por duas músicas em específico: You oughta know e Ironic. Eu certamente fiquei obcecada por aprender a letra pra conseguir cantar junto (agora estou levemente assim com La solitudine, da Laura Pausini. Alô Terra Nostra!).

Mas tem uma parte da música, especialmente da You oughta know, que eu – por mais que soubesse racionalmente a letra – não cosneguia encaixar as palavras no ritmo:

(…) and the love that you gave that we made wasn’t able to make it enough for you to be open wide, noooo / and every time you speak her name does she know how you told me you would hold me until you died? ‘Til you died, but you’re still alive (…)

Era absolutamente impossível. Depois de um tempo, eu acertava uma vez ou outra. Mas na maioria das vezes era simplesmente impossível.

Eventualmente, eu fui superando. Abrindo mão, começando a me fixar em outras coisas. Até que esses dias eu estava cantando ela despretensiosamente, e saiu. E de novo. E de novo. Minha boca só acompanhou meu cérebro. E eu cantei. No ritmo.

Eu achei – por falta de palavra melhor, apesar da repetição textual – absolutamente incrivel. Meu cérebro resolveu meu problema. De maneira autônoma.

Será possível, meu cérebro resolver problemas de maneira não consciente? Será que o que eu preciso é confiar mais no meu cérebro? Confiar que ele vai dar conta de pensar e resolver coisas, ainda que eu não fique completamente obcecada, pensando nelas de maneira consciente o tempo todo?

Será essa uma maneira de ele me dizer que eu preciso abrir mão de tentar achar uma saída racionalmente forçada pra tudo? Será que eu preciso pensar o tempo todo? Será que meu cérebro é capaz de cuidar de mim?

Claro que há um certo nível de despersonalização nesse raciocínio – já que eu tento separar meu cérebro de mim mesma, e tento entender que ele e eu somos dois entes diferentes que habitam o mesmo corpo – que inclusive aparece agora como uma terceira entidade.

E que essa despersonalização é falsa, ou no mínimo, fantasiosa, já que eu sou todas essas coisas juntas: a minha identidade, personalidade, consciência; meu cérebro e meu corpo.

Mas para fins didáticos, para mim mesma, eu vou permitir essa dissociação e viver com ela. E tentar não obcecar sobre ela a partir do meu fluxo de consciência. É possível? You oughta know.

como ser humana, e não relações públicas de si mesma?

A questão da performance pra mim sempre foi pauta conjunta da construção e afirmação da minha personalidade e da minha identidade. Se sou muitas, e tenho muitas caras e trejeitos e os mostro convenientemente de acordo com os interlocutores com os quais eu me relaciono, estou sendo ou performando?

Apesar de ser a mesma pessoa, se eu pedir para outras pessoas traçarem o que elas acham quem eu sou, tenho certeza que consigo algumas respostas muito diferentes, e certamente contraditórias. Para alguns, posso ser inocente e tímida. Para outros, essas duas palavras não podiam estar mais distantes do meu jeito de ser.

Claro, a percepção das pessoas sobre você não é um produto direto das suas ações, palavras e interações com elas, já que também reflete quem elas próprias são, como enxergam o mundo e os outros. Mas para além disso, fazendo um esforço de talvez sublimar esse viés de qualidade de informação – como se fosse possível – eu reconheço que a forma como eu me expresso e performo para cada interlocutor é diferente.

Já foi uma crise identitária pra mim: quando mais nova, na longa transição da adolescência para a vida adulta, eu me acostumava tanto a performar de acordo com as expectativas do outro sobre mim, que me senti perdida e sufocada, sem saber, de verdade, quem eu era.

Os anos foram passando, terapia rolando, me reconheço enquanto indivíduo. Apesar da pouquíssima habilidade em lidar com a minha própria subjetividade, a minha real identidade vem dela. Brota dessa subjetividade como as folhas brotam de uma batata doce, se você mergulhar na água.

E aí cada folha é diferente, assim como eu sou diferente nas várias situações e ocasiões na vida. Sim, isso é esperado. Sim, isso está pacificado. Mas e quando, ao invés de apenas deixar as diferentes folhas existirem em seus diferentes formatos e tamanhos, eu venho e aparo as arestas delas, tentando performar uma exatidão e contornos bem definidos, assim como performar identidades bem acabadas, numa necessidade profunda de amor e aceitação? Se esse amor e aceitação vêm, como saber se eles vêm pela substância da folha (a parte da expressão da subjetividade que eu não posso controlar) ou pelo formato cuidadosamente recortado (a performance)?

É razoável eu requisitar o mesmo gosto e amor se não ofereço a mesma performance? Porque ultimamente, o desejo tem sido o da expressão radical. Não no sentido de extremado, mas no sentido de original. Minha folha radical é aquela que brota sem recortes. Sem controles, sem operar intencionalmente de acordo com a minha percepção e antecipação dos desejos alheios.

Até porque, penso eu, se me recorto a partir dos desejos alheios, como reconhecer e exercer o meu próprio desejo? Como conseguir sustentar a minha existência de identidade e expressão, se me preocupo em performance orientada para os resultados? Como ser humana e reconhecer a humanidade em mim – e nos outros – se oriento a minha existência por uma lógica de performance e resultado?

Sou certamente uma mulher do meu tempo. Mas se eu olhar para o meu próprio tempo, como ser humana, e não relações públicas de si mesma?