Repertório, futuro e utopia

Sentada numa padaria , esperando meu café, sento e escuto um grupo de mulheres mais velhas comentarem sobre a faculdade de arquitetura de uma das filhas. A filha em questão fora fazer um trabalho de faculdade em Barcelona, sobre a ocupação de skatistas uma determinada praça. Não ficou claro pra mim onde a filha faz faculdade, mas tenho um bom papite que o curso é de arquitetura e urbanismo.

Não consigo desligar da conversa. Assim como não consigo desligar de duas crianças conversando com a mãe e correndo ao meu lado. A mãe os elogia, falando como eles são lindos e adoráveis. Não discordo. Não por achar isso particularmente dessas duas crianças, mas porque sei que me sinto assim com o meu próprio filho e seu jeito de viver e se expressar.

Um dos cenários me faz sentir completamente distante. O outro me traz referências íntimas. Não é sempre assim que lemos o mundo? A partir da nossa própria ótica, repertório, visão de mundo?

Entendo profundamente que cada indivíduo vai carregar consigo as suas histórias, carregadas de valores e julgamentos, formados em algum momento de sua vida. Mas também entendo que o todo não é uma soma das partes, e dividimos, em algum grau, uma moral e ética coletivas. Seja de maneira formal, como as leis escritas, seja a partir de um acordo tácito, como a convenção social de cumprimentar as pessoas que conhecemos quando as avistamos. Há também as experiências biológicas que nos unem: a experiência da gravidez, do parto de uma criança – por mais que seja completamente mediada por aspectos particulares, há uma importante experiência compartilhada.

Dentro dessa ideia de experiência compartilhada, alguns aspectos que eu via e vejo em outras pessoas, não consigo ver em mim. Um em específico é a fantasia de uma capacidade de “apenas aproveitar a vida”.

Sabe aquele setimento tão bem descrito pelo Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar, leva eu”? Eu nunca soube. Não consigo entender o conceito de não ter um sentido pra vida.

Não falo em termos de controle. Eu não preciso saber o que vai acontecer, e quando e como. Inclusive, uma das perguntas que eu mais tenho dificuldade de responder é a clássica dos coaches: “onde você se vê daqui a cinco anos?”. Amado, eu não sei o que vai acontecer amanhã, não sei como os acontecimentos do próximo ano vão me mudar (ou não). Como dizia Keynes, um famoso economista, não há elementos matemáticos suficientes para fazermos previsões adequadas sobre o futuro. Não, essa não é a frase ipsis litteris, mas passa a ideia geral.

Tudo bem que Keynes estava falando sobre o modo de produção capitalista, em especial dos mercados financeiros. Eu, longe disso. Mas estamo mesmo na era de nos entendermos como empresas de nós mesmos, não?

Voltemos ao meu ponto principal: o de não ter funcionamentos que parecem básicos. Sobre os cinco anos: racionalmente eu entendo perfeitamente que se trata de um desejo, e não uma previsão escrita em pedra. E que essa visão vai mudando ao longo do tempo. Mas é exatamente por essa razão é que eu me sinto fisicamente incapaz de descrever o que eu genuinamente gostaria de fazer ou onde eu gostaria de estar daqui a cinco anos.

Hoje em dia eu tenho um filho de quase 3 anos. Há cinco anos atrás, essa realidade parecia completamente impossivel. E era. Mas após uma pandemia, infinitas mudanças, ter um filho fez sentido. E é uma alegria.

Tenho um sentimento que tudo muda tanto, o tempo todo. Mas ao mesmo tempo, dentro das minhas contradições, sei que existe permanência, mesmo na mudança. Sei que daqui a cinco anos eu continuarei sendo mãe do meu filho. Mesmo que eu não seja a mesma mãe, e nem ele o mesmo filho.

Sei também que a minha incapacidade de projetar futuro cai em contradição com a minha incapacidade de lidar com o “deixa a vida me levar“. Eu quero projetar ou descobrir o futuro?

Acho que nenhum dos dois. Eu quero uma utopia para caminhar. Uma direção que converse comigo me faça descobrir um futuro que esteja alinhado com quem eu sou e com a minha própria noção de ética, moral, com um bom balanço entre individualidade e coletividade.

Qual é a utopia que movimenta o seu viver?