Bergdorf Goodman

Se você assistiu Sex and the City, certamente já ouviu esse nome. É uma loja de departamentos de luxo, que fica na “5th avenue” em “New York”. Nunca sequer pisei lá. Mas dado o advento da internet, me peguei passeando pelo site da loja, olhando peças de roupa que não me servem e nem posso pagar.

Tenho uma vida confortável, mas do alto da minha cadeira de escritório de servidora pública, usando uma jaqueta jeans com um rasgo no ombro – que eu tento me convencer que só dá mais personalidade para ela – penso em como apesar de não pertencer a essa realidade, eu prontamente aceitaria pertencer, se fosse possível.

Por mais fatores do que os eu consigo enumerar agora, talvez eu jamais compre sequer um lenço na Bergdorf Goodman. Eu nunca use um vestido Jason Wu, e nem use sapatos Gucci. (Mas se alguém souber de um lugar massa que venda algo parecido com essa Mary Jane Tabi da Maison Margiela, não se sintam tímidos em me enviar).

Em compensação, meu gosto por moda e pela auto expressão através dela sempre foi um desejo. Um desejo às vezes mais, às vezes menos realizado, mas sempre ali, presente. Certamente cerceado pelo meu tamanho – raras foram as vezes que eu realmente consegui vestir o que eu queria, com o caimento que eu queria, com a aparência que eu vislumbrava. Sempre tive um corpo gordo, ou mesmo quando não era gordo, sempre fui uma mulher grande, de pernas grossas. Moda foi um assunto de expressão, mas também de acomodação – o que eu consigo fazer com o que me cabe?

Depois de um dia completamente não memorável, lá em 2018, se não me falha a memória, meu namorado me disse que ele jamais tinha vestido algo desconfortável. Seja em termos de calçados – geralmente tênis – ou em termos de roupas, ele nunca tinha comprado uma blusa que só dava pra usar aberta, uma calça que tinha que usar com cinta modeladora, um vestido com uma fenda que precisava ser vigiada a noite inteira para não revelar demais. Ele nunca tinha comprado um sapato que pegava no dedinho, mas que tudo bem, porque dentro de um ou dois dias, ia lacear.

Eu olhava pra ele desacreditada. Como era possível? Essa não era a experiência normal de usar roupas? Como assim eu tinha me feito caber em roupas e sapatos pelos últimos 24 anos e isso não era completamente normal? Aceitável, ao mínimo?

Em descrença, eu não processei aquela informação na hora. Mas, olhando em retrospecto, aquela conversa mudou profundamente o modo como eu me vesti e comprei roupas nos últimos anos. E cara leitora, se você chegou aqui esperando uma história de superação, de como eu aprendi a lidar melhor com a moda e com o modo que eu compro as minhas roupas e coisas, eu sinto em lhe desapontar. Aquela conversa mudou profundamente o modo como eu entendo e vejo a moda possível – do dia a dia – mas para pior, acredito eu.

Aquela perplexidade somada a uma furiosa feminista que não entende como e por que a sua experiência de vida tem que ser menos confortável ou facilitada que a de seu namorado, passou por muitas transformações na vida prática (algumas coletivas, outras individuais): uma pandemia, uma maternidade, vários encontros e desencontros profissionais, umas várias mudanças de casa. Desde então, meu guarda roupas cresceu em número de shorts biker, leggings pretas, camisetas desajustadas e tênis confortáveis – muitos tênis confortáveis.

Depois da gravidez, especialmente, demorei para usar calça jeans. E mesmo assim, as calças jeans que uso, são as largas. Calças largas que não apertam em lugar algum. Skinny jeans? Nem sei o que é isso. Nem serviria na minha perna, também (que entre um lipedema e uma gravidez, engrossou ainda mais).

Me sinto amarga ao falara sobre isso. Domingo passado uma amiga muito querida veio me visitar. Ela é quase como uma antítese dessa minha amargura: tem uma bondade e uma positividade não tóxica que eu sinceramente não sei de onde brota. Não faço ideia de como ela aguenta conversar comigo e com a minha amargura, sem se deixar contaminar pela criticidade que faz de mim uma encantadora pessimista. De qualquer maneira, é essa amargura que eu sinto ao me vestir. Uma senhora ranzinza, dizendo que vai ficar desconfortável, que vai ficar ridículo, que vai ficar inadequado. Que eu não tenho criatividade o suficiente, que eu vou ter que ficar ajeitando a roupa de cinco em cinco minutos, que não é prático. Que o sapato vai apertar, que eu vou ter que carregar a criança, que eu vou ter que andar – então é inviável – que meus braços vão ficar de fora e as pessoas não vão me achar bonita, linda, ou gostosa. E ainda pior: eu mesma não vou me achar nem bonita, nem linda, muito menos gostosa.

Porque falo sobre a visão dos outros, mas sinceramente ligo pouco. O que me incomoda é a minha própria insatisfação e desdém com o que me visto, com como eu me visto. Com como eu me vejo, como eu vejo como eu me visto.

Se ser gostosa é uma questão de energia, cadê minha energia de gostosa? Ultimamente eu só ando sentindo uma energia de mãe cansada e ansiosa. Duas coisas que não combinam muito com saltos altos de luxo, vestidos chiques, lenços de seda, vestidos de grife.

Quantas mães cansadas compram na Bergdorf Goodman?

São dias e anos atípicos

Sábado, 6h15. Eu acordei mais cedo com insônia, algo que quase nunca acontece. Na verdade, é sempre o oposto: geralmente eu estou atrasada porque dormi demais. Mas hoje, acordei cedo e minha cabeça decidiu que já era hora de começar o dia. Depois de uns vinte minutos na cama e um celular que tinha descarregado completamente à noite, me impedindo de apenas me acabar em redes sociais, eu levantei, fiz um chá e fui dobrar algumas roupas do varal.

São dias e anos atípicos. Eu não gostava muito de chás. Era apenas água suja, eu dizia. Aprecio esse que está na minha caneca agora. É doce, frutal, uma mistura com chá branco que me traz um certo conforto que um café, agora, não conseguiria.

Há alguns anos, de uma maneira ou de outra, em um formato ou em outro, mantenho diários. O ato de escrever, com sentido ou não, me atendo aos fatos ou não, mas sempre seguindo um fluxo de consciência sem muito freio, sempre me fez bem. Penso sempre se alguém, além de mim, vai ler meus escritos. Se no futuro, meu filho, um dia vai ler esses diários pra conhecer a pessoa que eu sou para além de ser mãe dele.

Você escreve de alguma maneira? Em algum caderno, em algum aplicativo? Você tem um diário? Por um tanto de tempo, tinha uma vergonha boba de chamar de diário. Eu chamava de caderninho. Meus caderninhos. Um tanto inspirado nos cadernos de anotar a vida, da personagem Clara da Isabel Allende em A Casa dos Espíritos. Sempre achei bonita a ideia de anotar a vida para a posteridade. Eu talvez gostasse muito de ler diários dos meus avós, pais, tios. De épocas que eles não eram avós, pais ou tios. Quem era a minha avó? Quais eram seus sonhos? Suas angústias? Seus desejos? Posso apenas olhar para fotos (poucas, já que antigamente eram raras) e imaginar. Olhar nos olhos sérios daquela mulher jovem, que um dia ia ter uma neta que herdaria seu nome, e tentar imaginar quem era ela.

Quando escrevemos em diários, se temos a certeza de que ninguém (pelo menos no presente) há de ler o que escrevemos, Somos livres. Livres para expressar algumas das centelhas mais particulares que nós temos.

Termino esse post com uma frase de uma autora americana chamada Joan Didion, que descobri esse ano, e muito expressa meus sentimentos sobre meus diários:

O motivo de se manter um diário nunca foi, e nem é, ter um relato factual do que fiz ou pensei. Isso seria um impulso completamente diferente, um instinto pela verdade que eu invejo às vezes, mas não possuo. (…) Escrevo conforme meu humor.”

Joan Didion, escritora americana em um artigo de 1968

Desejo que o atropelamento vire atravessamento

 

Há um ano, mais ou menos, eu escrevi esse texto. Ainda expressa emoções com as quais me relaciono intimamente. Meu bebê já não é mais um bebê. Já é uma pequena criança, que me atravessa todas as manhãs quando me dá um beijo de bom dia, e um sorriso completamente amoroso quando me vê chegar do trabalho.
Aos poucos, o atropelamento vai virando atravessamento.

    Agora de manhã meu marido ficou cuidando do bebê, e eu fui fazer outras coisas da vida. Depois de uma boa hora gasta deitada na cama, vendo o feed do Instagram – inclusive posts que nem lembro mais do que se tratavam* – levantei para pintar meu cabelo, retocar a raiz que já estava grande demais para o meu gosto. Enquanto a tinta tem seu tempo de ação, resolvo olhar para o buraco negro que está a minha parte do guarda-roupas. Roupas que não servem, roupas que precisam de reforma, roupas que não dizem mais quem eu sou.

    Logo desisto. Não estou pronta para fazer esse filtro. Não me sinto pronta para assumir o meu eu pós maternidade. Esses dias, estava refletindo na terapia a diferença entre se sentir atropelada e se sentir atravessada pelo meu filho. Ainda me custa falar “maternidade”, sinto como algo pesado demais para lidar. Apesar de se configurar todos os dias, e ser tão presente e tão real. Depois de várias semanas de viroses respiratórias, pneumonia, sinusite e algumas idas a médicos e farmácias, me sentia completamente atropelada pelo meu filho e pela maternidade. Atropelada mesmo, sem rumo, sem condições de aguentar mais. Mas aguentando. Mas continuando a levantar, dar remédios, medir febre, usar espaçador, alimentar, fazer dormir, cuidar. Cuidar dos outros custa caro. Ainda mais quando esse cuidado está repleto de medo de perder. Noto que meu filho é minha força e minha fraqueza, simultaneamente. É pelo meu amor a ele que eu continuo a nadar, mesmo querendo ficar à deriva. Isso parece romântico demais pra mim, e por isso me causa um certo desconforto. Existe um modo de expressar esse sentimento sem parecer algo místico? Porque já adianto: não tem nada de místico ou sublime, ou idealizado nesse sentimento. É algo completamente concreto. É algo que se faz presente todos os dias, e que observo na prática do cuidado diário que ele me chama para exercer.

Parentalidade é trabalho. Contínuo. É esforço e doação. Tem suas recompensas, como o vulcão inexplicável de sentimentos que me tomam quando vejo a boca do meu filho devorar um pedaço de mamão.

    É muito trabalho, e as recompensas são simples: um sorriso, uma soneca no colo, uma boca cheia de fruta. Um simples que enche os olhos e coração de uma maneira completamente primitiva e irracional.

    Penso em como esse nível de cuidado e dependência não vai ser pra sempre. Afinal de contas, meu filho vai crescer, se tornar um adulto, e seus dias de bebê e criança ficarão apenas como memórias. Não desejo que ele cresça logo, para que meu trabalho diminua. Desejo mesmo que eu tenha mais tranquilidade para lidar com esse trabalho. Desejo aprender a transformar atropelamento em atravessamento. 

* – Essa é uma percepção que tenho tido, repetidamente, há uns dias.