São dias e anos atípicos

Sábado, 6h15. Eu acordei mais cedo com insônia, algo que quase nunca acontece. Na verdade, é sempre o oposto: geralmente eu estou atrasada porque dormi demais. Mas hoje, acordei cedo e minha cabeça decidiu que já era hora de começar o dia. Depois de uns vinte minutos na cama e um celular que tinha descarregado completamente à noite, me impedindo de apenas me acabar em redes sociais, eu levantei, fiz um chá e fui dobrar algumas roupas do varal.

São dias e anos atípicos. Eu não gostava muito de chás. Era apenas água suja, eu dizia. Aprecio esse que está na minha caneca agora. É doce, frutal, uma mistura com chá branco que me traz um certo conforto que um café, agora, não conseguiria.

Há alguns anos, de uma maneira ou de outra, em um formato ou em outro, mantenho diários. O ato de escrever, com sentido ou não, me atendo aos fatos ou não, mas sempre seguindo um fluxo de consciência sem muito freio, sempre me fez bem. Penso sempre se alguém, além de mim, vai ler meus escritos. Se no futuro, meu filho, um dia vai ler esses diários pra conhecer a pessoa que eu sou para além de ser mãe dele.

Você escreve de alguma maneira? Em algum caderno, em algum aplicativo? Você tem um diário? Por um tanto de tempo, tinha uma vergonha boba de chamar de diário. Eu chamava de caderninho. Meus caderninhos. Um tanto inspirado nos cadernos de anotar a vida, da personagem Clara da Isabel Allende em A Casa dos Espíritos. Sempre achei bonita a ideia de anotar a vida para a posteridade. Eu talvez gostasse muito de ler diários dos meus avós, pais, tios. De épocas que eles não eram avós, pais ou tios. Quem era a minha avó? Quais eram seus sonhos? Suas angústias? Seus desejos? Posso apenas olhar para fotos (poucas, já que antigamente eram raras) e imaginar. Olhar nos olhos sérios daquela mulher jovem, que um dia ia ter uma neta que herdaria seu nome, e tentar imaginar quem era ela.

Quando escrevemos em diários, se temos a certeza de que ninguém (pelo menos no presente) há de ler o que escrevemos, Somos livres. Livres para expressar algumas das centelhas mais particulares que nós temos.

Termino esse post com uma frase de uma autora americana chamada Joan Didion, que descobri esse ano, e muito expressa meus sentimentos sobre meus diários:

O motivo de se manter um diário nunca foi, e nem é, ter um relato factual do que fiz ou pensei. Isso seria um impulso completamente diferente, um instinto pela verdade que eu invejo às vezes, mas não possuo. (…) Escrevo conforme meu humor.”

Joan Didion, escritora americana em um artigo de 1968