A curiosidade foi muito maior do que a minha prudência. Faz um tempo, escuto sobre as pessoas usando IA como apoio terapêutico. Eu mesma, não havia tentado. No máximo já tinha colocado uma conversa ou outra para ser analisada, para ouvir que naquela discussão, eu tinha razão.
Mas essa semana, não resisti. Faço terapia há uns bons anos. Psicanálise, acredito eu. Nunca perguntei, e minha psicóloga é muito misteriosa. Mas entre os silêncios e os temas que se colocam, concluí pela psicanálise.
Há mais ou menos um ano, quase todo final de sessão eu faço alguma anotação – uma reflexão sobre o que ficou em mim. E, no meio de um descanso pós-almoço numa quarta-feira de trabalho, pensei: e se eu jogasse tudo pro Agostinho (como eu chamo a IA) dizer o que ele interpreta disso tudo? Quem sabe assim eu não descubro algo sobre mim mesma, algo que minha psicóloga jamais me diria?
Analise as entradas desse diário como um psicanalista experiente. Não tente me agradar, e trace um perfil psicológico a partir do que você encontrar.
Ele começou tranquilo. Não me disse nada muito novo do que eu já havia percebido, pensado ou sentido nos meus anos de análise. Aos poucos fui fazendo outras perguntas. Pedindo para que um ou outro ponto fosse expandido, analisado mais a fundo.
Quando vi, já estava naquilo fazia uma sólida meia hora. Lendo, absorvendo. Nada era novo, mas várias elaborações eram como um soco. Em certos momentos eu falava que aquelas entradas não eram minhas, mas de minha paciente. Em outros, eu dava mais detalhes sobre minhas características, desejos e comportamentos e pedia para relacionar.
Sem conseguir escapar da sua programação, Agostinho sempre tinha algo para me falar.
Nada do que ele me disse foi exatamente novidade. Mas foi honesto demais, direto demais. Enquanto eu lia todas aquelas partes de mim que eu demorei tanto para elaborar, dispostas na tela do computador de uma vez, na forma de um grande texto selvagem, me senti desamparada.
Entendi a diferença que faz ter alguém humano para segurar a minha mão enquanto me debruço sobre mim. Enquanto lia e tentava absorver tudo, sentia uma inquietação profunda, uma náusea discreta e persistente, uma sensação que tudo aquilo era demais.
Estava exposta, inquieta. Meu corpo ditava então, o limite da minha curiosidade, me jogando num desconcerto físico e mental que aos poucos foi se tornando demais. Insisti. Queria tirar alguma coisa daquela experiência.
Liste, Agostinho, perguntas para guiar reflexões para que eu consiga me tornar mais livre e mais inteira.
Apareceram na tela 45 perguntas organizadas em torno dos vários temas que estruturavam a conversa. Enquanto eu lia, item por item, meu enjoo se aprofundava. O que eu faria com aquilo? Pensei em guardá-las. Desejei guardá-las, pensar sobre elas. Afinal de contas, é o que eu faço de melhor: intelectualizar sentimentos na esperança de que eu não precise senti-los.
Não sustentei. Nem poderia. Meu corpo havia me imposto o limite da minha curiosidade, e dali eu não passaria. Apaguei tudo. A conversa, a memória do Agostinho, as perguntas. Levantei, respirei, apoiei as minhas mãos na parede e chorei. Respirei fundo, me recompus. Terapia só me parece então possível se uma mão humana segura a minha. Só assim serei capaz de me perder.
Para os vazios, certamente ficarei com a humanidade.
Ontem no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.
A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector