É na ausência que existe a esperança

Dia 16 de dezembro, entramos na última quinzena de 2024. Aacabo de voltar da reunião de pais da escola do meu filho, e começo a pensar em tudo o que vivemos nesse ano. Já podemos fazer a retrospectiva de 2024? Não me sinto preparada. Ainda há o que viver em quinze dias.

Penso no que eu desejei, ao final de 2023, enquanto os fogos de artifício brilhavam gloriosos sobre a minha cabeça. Eram desejos tímidos, o ano tinha sido cascudo. Desejei que meu filho se adaptasse à escola. Desejei que 2024 fosse um ano menos selvagem.

O primeiro desejo se realizou, e Zazá passou o ano sem grandes intercorrências. O segundo desejo, mais ou menos. Será que faltou especificidade? Talvez, nos meus desejos de 2025, eu precise ser mais específica. Não porque acredite que assim meu desejo será mais ou menos atendido pelos astros, por Deus ou pelo acaso. Mas porque assim será mais fácil de saber. Uma variável binária (foi atendido ou não foi atendido, 1 ou 0) é sempre mais fácil de interpretar do que uma variável qualitativa.

Mas também rechaço a ideia de desejos binários, vida binaria. Sou feliz ou sou triste? É melhor ser alegre que ser triste, é verdade, Vinícius. Mas a alegria não pode ser feita de binarismos. Se tenho, sou alegre. Se não tenho, sou triste. Existe uma beleza no não possuir. No não ter seus desejos realizados. É na ausência que existe a esperança.

Se não houvesse falta, não haveria desejo, não haveria pulsão, a vida não seria possível. Mas faltar dói. Dói tanto que é preciso esperançar a presença. Mas quando chega a presença, quem faz falta é a falta. 

Falta em excesso também desesperança. Falta em excesso impede a gente de sonhar, de desejar. Se falta tudo, como saber o que se quer? A falta e a presença devem dançar, assim, livrementes. Cada uma com a sua cena. Com as suas possibilidades e seus efeitos sobre as nossas vidas.

Precisa faltar, sempre falta. Só assim podemos desejar e viver. Mas precisa presençar também. Só assim teremos condições e repertório para ver o que nos falta. A falta impulsiona. A presença estrutura.

Já faz alguns anos que não faço lista de metas para o ano que começa. A vida corre e eu só consigo desejar. E aprendi também a não desejar muito, pra dar espaço para a vida surpreender. Desejo o suficiente para esperançar.

Tenho sim, desejos para 2025 que eu espero, com esperança, que se realizem. Mas também espero que as faltas me façam levantar pela manhã e esperançar dias melhores.

Eu era mais magra, mais bonita e mais esperançosa.

Estava procurando uma foto 3×4 nos meus arquivos online. Vasculhando pastas antigas, encontrei fotos de uns 10 anos atrás. Os sentimentos ficaram muito misturados. Eu era muito bonita. Estava no relativamente no início da minha vida sexual, e todo aquele tesão, aquela disposição e desejo completamente pulsantes, são visíveis. Pelo menos pra mim.

Não quero soar como uma pessoa tragicamente nostálgica, escrevendo sobre como, um dia, as cores eram mais vivas e a vida era melhor. Longe disso, a Theodora de hoje é uma mistura entre a que já fui nessas fotos e as experiências e decisões que passei ao longo dos anos. Não se trata de glorificar o passado condenando o presente e lamentando o futuro. Se trata de celebrar o que um dia eu já vivi e como eu existo e coexisto com todas as versões de mim mesma.

Mas admito que as transformações durante esses anos foram muitas, e me peguei sentido uma certa tristeza vazia em perceber que aquela moça bonita das fotos era eu, mas não é mais.

Minha construção social enquanto mulher me faz lamentar um corpo que já não mais tenho. Depois de muitos quilos adicionados ao meu corpo, uma pandemia, uma gravidez, e anos de ansiedade desmedida, sou fisicamente outra pessoa. Mas não apenas. A vida se tornou mais complicada, mais complexa, mais demandante e menos flexível. Hoje tenho mais repertório, mais amor, mais inteligência e um filho maravilhoso que eu não trocaria por nada. Mas também tenho mais responsabilidades, mais temores, mais questões.

Me pergunto: de onde, então, brota a leve tristeza que me faz contemplar as fotos antigas? Seria ela uma tristeza boa, daquelas que te trazem a consciência dos vários lugares que você já pertenceu? Se eu não quero viver de novo aquela vida que vejo estampada nas fotos, porque o luto por ela ainda persiste?

Sinceramente, acredito que o luto persiste não pelo passado, mas pelo futuro. Eu definitivamente não sou uma das pessoas que vê o copo meio cheio. Entre crise climática, crise econômica, crise política e uma ameaça constante de “você não vai conseguir se aposentar”, é difícil ter esperança no futuro. Claro, há uma responsabilidade clara e ativa sobre mim mesma de construir o futuro que eu quero pra mim, pelo menos num certo nível individual. Mas nem só como indivíduo vive um humano. As perspectivas coletivas se amontoam de uma maneira que eu não só me sinto cética sobre fazer a diferença, como também rio meio abobada da situação, num riso desesperançado de quem não daria conta de tratar do assunto de maneira completamente séria, e precisa do alívio cômico para suavizar o tom da conversa.

Enquanto minha fé no futuro se abala, a tristeza pelo luto do passado e pelo luto do futuro brotam em mim toda vez que eu vejo minhas belas fotos antigas, e meu superego me diz que eu era mais magra, mais bonita e mais esperançosa.