Um corte de cabelo em três atos

O antes

Tenho me sentido inquieta sobre meu cabelo. Especialmente depois de ter marcado hora com uma das minhas cabeleireiras favoritas, a Edna.

A inquietação é anterior. Se não fosse, não teria marcado hora. Mas, uma vez tomada a decisão de cortar o cabelo, preciso entender o que eu quero. Estou passando por alguns incômodos físicos com o meu cabelo – seu comprimento está logo abaixo dos ombros, parecendo uma grande pirâmide enrolada, já que tenho uma raiz mais lisa do que o comprimento. Seu volume mal distribuído faz meu rosto parecer ainda maior. Além disso, a sensação de um cobertor abraçando minha nuca e costas é insuportável o suficiente para ele ficar preso quase o tempo todo.

Faz três anos que resisto bravamente e o deixo crescer. Quando uso o cabelo solto, ou escovado, acho belíssimo. Nas fotos, funciona muito bem. Faz eu me sentir bonita. Cara de bonita, sabe? Cabelo grande passa uma sensualidade óbvia. E eu me vejo alcançando por essa obviedade. Mas minha praticidade ganha, e viver com calor e cabelo preso é algo que detesto.

Desejo um cabelo indomável, volumoso e glamouroso, que traduza a minha personalidade e sensualidade. Um cabelo cheio, com movimento, que carregue a si mesmo, sem precisar de esforços para existir ou se manter. Eu quero um cabelo mas também quero uma sensação. Uma comoção.

Escolher o cabelo então é uma daquelas escolhas impossíveis, pois tudo pode ser certo ou errado. Mais importante que o cabelo é a pessoa que ele traduz. Mas, cor, textura, volume, movimento, tudo precisa casar adequadamente – ou pelo menos, suficientemente – para que tudo se integre.

Decidir se o cabelo fica grande ou mais curto, se torna então uma adequação à sua própria essência e personalidade.

O durante

Reencontrar a Edna é sempre maravilhoso. Gentil, genuína e carinhosa, conheço ela há bastante tempo. É uma daquelas pessoas que você fica anos sem encontrar, mas quando encontra, se sente abraçada.

Como profissional, manuseia sua tesoura de uma maneira que meu cabelo concorda. Eles aparentemente fizeram um pacto, onde ela corta e ele segue. Geralmente, seu corte dura meses, cresce bonito e selvagem.

Cheguei com meias referências. “Eu trouxe algumas referências, mas não gosto de nenhuma delas”. Edna riu alto. Era verdade. Gosto de referenciar cabelo anteriores meus, mas nenhum era comprido ou desfiado o suficiente. “Então me conta o que te incomoda”. Calor, volume nos lugares errados, um cabelo pesado. Junto com as meias referências, ela disse que sabia o que fazer. Cortou a seco. Lavou. Cortou molhado. Secou sem escova. Óleo. Pomada. Ela me vendeu aquela pomada sem nem precisar oferecer.

O depois

Ela realmente sabia o que fazer. Não tenho mais um cobertor nas costas. Tenho um cabelo mais livre. Entre o corte e a conversa, essa é uma das razões pelas quais eu sempre volto na Edna: ela compreende minhas diferenças sem caber nem forçar.

Gostaria eu de compreender minhas diferenças sem caber nem forçar. Saí de lá com um cabelo mais genuíno – meu, dele próprio e dela.