Planejar e continuar planejando

Eu amo planejar. Eu amo tudo o que envolve o planejamento. Pensar nos objetivos, nas necessidades, nas etapas. Abrir o calendário, ver datas, possibilidades, o que vai ser exequível e o que vai ter que ser deixado pra trás, como um sonho de uma noite de verão.

Gosto de personalizar o processo. Gosto de entender que cada objetivo, objeto ou projeto tem sua própria dinâmica, e que precisa, talvez, de um método diferente de planejamento.

Gosto de formalizar tudo isso num documento visualmente agradável, funcional. Que não demande tempo demais para ser atualizado, mas que ainda marque o progresso feito.

Não importa o meio: digital ou analógico, notion, google calendar, miro, uma apresentação em ppt, uma tabela de excel, um caderno ou uma cartolina. Tudo depende do que faz mais sentido.

Eu realmente amo todos os aspectos do planejamento. Curiosamente, a minha tragédia é a execução.

Ter que dar os primeiros passos, cumprir as tarefas cuidadosamente pensadas para serem executadas num prazo determinado (com óbvio espaço para acomodar imprevistos e atrasos), prazo atrás de prazo. A execução é uma tragédia.

O que me interessa no planejamento – além da minha predileção por papelaria, cadernos e canetas – é a ideação. No planejamento, tudo é da ordem das ideias, e eu consigo fazer o que mais gosto: pensar.

No planejamento tudo é possível, e minhas ideias encontram o máximo de concretude que elas aceitam. Uma ideia abstrata (como a entrega de um projeto de pesquisa, por exemplo) vai se tornando palpável, com a fragmentação de tarefas, etapas e prazos. O que fazer, quando fazer, para que aquele projeto seja entregue no prazo combinado. Algo completamente ideal, ganha numa abstração de grau menor, alguma concretude. A concretude do papel, da escrita, da definição.

Aquela ideia amorfa ganha contorno, ganha corpo. Mas veja, ainda é um corpo etéreo, um corpo não-corpo, porque ainda permanece no campo das ideias. É uma auto-realização, sem o comprometimento com um status final de concretude que a execução exige.

Planejar é bom, é bonito: fica nas ideias sem a feiúra da concretude áspera da execução, onde o que é executado não se iguala ao que foi planejado.

Executar também é fracassar. É aceitar que as suas capacidades são limitadas, e que nem tudo é possível. O que foi possível não é nem tão grandioso, nem tão gostoso como o que foi planejado.

Mas engrandecer o planejamento e denunciar a feiúra da execução posa um problema fundamental: as coisas acontecem, são sentidas, cheiradas, pegadas, invertidas, destruídas e reconstruídas na execução. As coisas – e a vida, consequentemente – só existem durante e após a execução. As ideias não existem concretamente. As ideias produzem efeitos, as ideias condicionam a execução, as ideias satisfazem um desejo de controle e imaginação. Mas as ideias ainda são só o que podem ser: ideações da realidade.

E ao fim e ao cabo, as ideias precisam da concretude da execução para se criarem em novas realidades, novas possibilidades e novas ideias. A execução também se faz necessária para as ideias.

Talvez o planejamento seja essa tentativa de ponte entre as ideias e a execução. Talvez o planejamento seja uma ideia de execução que eu consigo sustentar sem sofrer, sem me comprometer. Sem encarar os meus limites de executar – sem feiúra, sem concretude.

A feiúra da concretude vem dos limites do executor. Dos meus limites de execução. As ideias também têm seus limites. Mas os da execução são muito maiores. Meu desencontro com a execução, então, é um desencontro com os meus limites. Reconhecer as falhas da execução significa reconhecer até onde eu consigo ir. Até onde eu dou conta de ir. E minhas ideias sempre chegaram mais longe do que minhas execuções.

Se haver com os próprios limites é difícil, pois é necessário se haver com a sua humanidade. Pra mim, significa pôr à prova minhas capacidades, mostrar quem eu sou e como eu sou. Significa dizer: eu venho até aqui, é isso que eu consigo fazer.

E em seguida, olhar para o que fiz e questionar: está bom o suficiente? O que eu dei conta de fazer, foi suficiente? Foi mais que suficiente, foi bom? Eu sou suficiente? Eu sou boa?

Se haver com a pópria humanidade significa também reconhecer que essas são perguntas inócuas, sem sentido real – uma vez que a própria humanidade é inerentemente suficiente. Porque quando se fala de humanidade, não se fala de suficiência, se fala de possibilidade. E todas as possibilidades são suficientes, todas as possibilidades são existíveis.

A dicotomia entre planejar e executar desemboca, então, no ser, no existir e no desejar. Planejar é desejar, executar é obter: obter a concretude da própria humanidade.

contornos e limites

Já falei algumas vezes na terapia sobre os contornos da subjetividade do indivíduo. De maneira específica, sobre os contornos da minha própria subjetividade. Como eu defino, descrevo, enxergo, delimito a minha subjetividade?

Desde o início do ano eu fui investigar de maneira objetiva se eu tinha uma neurodivergência. Se, essencialmente, meu cérebro processava a realidade de uma maneira não neurotípica. Depois de alguns testes que se assemelhavam a um ratinho procurando comida um labirinto, eu recebi um laudo que dizia exatamente o que eu suspeitava ser: neurodivergente.

Foi um relatório de mais ou menos 20 páginas, e é claro que ele me dizia mais do que isso. Era um laudo que mapeava todo o meu funcionamento cognitivo. Ali eu vi refletidos alguns anos de descobertas construídas na terapia. Foi um sentimento muito curioso, com quase nenhuma ação prática: eu dei um nome para algumas coisas, mas as coisas continuam ali como sempre estiveram, e eu tenho que lidar com elas da mesma maneira que sempre lidei.

Mas na verdade essa é uma grande falácia, não é? Não há a menor possibilidade de ser a mesma coisa. E não há a menor possibilidade de eu lidar com as coisas da mesma maneira. Primeiro, porque as coisas mudam o tempo todo. O tempo todo. Segundo, porque, como eu bem aprendi nesses anos de terapia, a forma como você elabora as coisas com a sua linguagem altera a sua percepção sobre essa coisa.

Me reconhecer como neurodivergente, com o passar do tempo, foi como um abraço: eu não era estranha, chata, inconveniente. Eu só sou diferente. E reconhecer essa diferença me trouxe mais pertencimento do que apartamento.

Entender a minha neurodivergência me permite dar mais voz e importância para os meus sentimentos, sensações, vontades e pensamentos. Me dá uma leve ideia de como é não questionar a minha adequação o tempo todo.

Entender a minha neurodivergência me permite reconhecer novos contornos. Me permite dar mais voz a mim mesma. Parte de mim se sente desolada por ter que ter tido um laudo pra isso – para que eu me permitisse ter alguma voz. Mas ao mesmo tempo penso que sou apenas uma mulher latinoamericana, ou como eu repito pra mim mesma o tempo todo: hei de reconhecer que sou apenas uma mulher do meu tempo, com todas as suas capacidades e limitações.

Mas dar mais voz a mim mesma não significa dar voz a mim mesma sempre. Longe disso. Eu inclusive me surpreendo sempre quando consigo reconhecer as pequenas-grandes coisas que me atravessam.

Essas descobertas foram o que me trouxeram para esse texto. Venho me descobrindo uma pessoa com várias rigidezes que eu acomodo diariamente, sem validá-las, dando outros nomes que deixem o desconforto mais socialmente palatável: “ah, é que eu sou fresca com comida mesmo” (quando na verdade o cheiro do lugar que ficou impregnado na minha roupa me perturbou a tarde inteira, provocando um sentimento de agonia que só iria passar depois de um banho); “eu sou teimosa” (quando na verdade eu não via nenhum motivo para concordar com você, já que seu argumento era fraco e não se sustentava, ou você não soube me explicar porque ele era mais sólido que o meu);  “Ih, não é nada… Todo mundo erra, agora é bola pra frente” (quando eu não conseguia aceitar uma conduta moral ou eticamente duvidosa que eu fiz, e estava completamente focada e não conseguia abstrair do valor pretensamente ofendido, mas a pessoa não entendia ou não queria mais falar sobre aquilo).

Mas, contornar o desconforto para não incomodar o meu entorno, não anula o desconforto interno – como sempre achei que fosse possível, como se aquele desconforto fosse minimizado, ele desapareceria de dentro de mim.

Ledo engano. O desconforto não sentido, não anunciado, não denunciado, não autorizado, faz o que consegue fazer: desorganiza. Se ele não cabe aqui, onde cabe? O que é aqui, então? O que cabe aqui?

No acúmulo de desconfortos, no acúmulo de desautorizações de existência, os contornos se desfazem. E a desorganização se instala de um jeito que desconforta completamente.

Aprendi que uma das características minhas que posso atribuir à minha neurodivergência é a intensidade emocional (que eu sempre dei conta de modular externamente para não causar aborrecimentos desnecessários a terceiros; *coloca a máscara de palhaça*).

A intensidade emocional faz com que essa desorganização seja praticamente onipresente e, de repente, todas as suas escolhas são questionadas, e suas ações ficam suspensas. Você entra num estado de sobrevivência funcional onde todas as suas energias são alocadas para você funcionar minimamente, e performar as atividades estritamente necessárias: comer, trabalhar, cuidar dos filhos e cachorros.

Mas a vida objetiva que segue esconde uma vida subjetiva que fervilha, que consome. Uma subjetividade em efervescência que soa muito melhor do que faz sentir. E no desespero por contornos, várias artimanhas podem ser empregadas: comida, sexo, sono, carência, compras. Qualquer coisa que dê limites para esse ser que transborda.

No fim, essa desorganização se transforma em reorganização – nem sempre melhor do que a anterior, nem sempre mais organizada ou esclarecida. Mas o estado de desorganização é tão incômodo, que qualquer que seja a organização posterior, ela será menos sofrível que a suspensão.

A organização, desorganização e reorganização sempre acontecem. É quase que um processo cíclico que se repete enquanto formos capazes de perceber a nossa existência. Mas nunca ocorre da mesma maneira, e sempre resulta em algo diferente. Talvez melhor do que um círculo, a imagem seja a de uma espiral, que altera o seu raio de acordo com as possibilidades – de sentir, de perceber, de elaborar.

Repertório, futuro e utopia

Sentada numa padaria , esperando meu café, sento e escuto um grupo de mulheres mais velhas comentarem sobre a faculdade de arquitetura de uma das filhas. A filha em questão fora fazer um trabalho de faculdade em Barcelona, sobre a ocupação de skatistas uma determinada praça. Não ficou claro pra mim onde a filha faz faculdade, mas tenho um bom papite que o curso é de arquitetura e urbanismo.

Não consigo desligar da conversa. Assim como não consigo desligar de duas crianças conversando com a mãe e correndo ao meu lado. A mãe os elogia, falando como eles são lindos e adoráveis. Não discordo. Não por achar isso particularmente dessas duas crianças, mas porque sei que me sinto assim com o meu próprio filho e seu jeito de viver e se expressar.

Um dos cenários me faz sentir completamente distante. O outro me traz referências íntimas. Não é sempre assim que lemos o mundo? A partir da nossa própria ótica, repertório, visão de mundo?

Entendo profundamente que cada indivíduo vai carregar consigo as suas histórias, carregadas de valores e julgamentos, formados em algum momento de sua vida. Mas também entendo que o todo não é uma soma das partes, e dividimos, em algum grau, uma moral e ética coletivas. Seja de maneira formal, como as leis escritas, seja a partir de um acordo tácito, como a convenção social de cumprimentar as pessoas que conhecemos quando as avistamos. Há também as experiências biológicas que nos unem: a experiência da gravidez, do parto de uma criança – por mais que seja completamente mediada por aspectos particulares, há uma importante experiência compartilhada.

Dentro dessa ideia de experiência compartilhada, alguns aspectos que eu via e vejo em outras pessoas, não consigo ver em mim. Um em específico é a fantasia de uma capacidade de “apenas aproveitar a vida”.

Sabe aquele setimento tão bem descrito pelo Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar, leva eu”? Eu nunca soube. Não consigo entender o conceito de não ter um sentido pra vida.

Não falo em termos de controle. Eu não preciso saber o que vai acontecer, e quando e como. Inclusive, uma das perguntas que eu mais tenho dificuldade de responder é a clássica dos coaches: “onde você se vê daqui a cinco anos?”. Amado, eu não sei o que vai acontecer amanhã, não sei como os acontecimentos do próximo ano vão me mudar (ou não). Como dizia Keynes, um famoso economista, não há elementos matemáticos suficientes para fazermos previsões adequadas sobre o futuro. Não, essa não é a frase ipsis litteris, mas passa a ideia geral.

Tudo bem que Keynes estava falando sobre o modo de produção capitalista, em especial dos mercados financeiros. Eu, longe disso. Mas estamo mesmo na era de nos entendermos como empresas de nós mesmos, não?

Voltemos ao meu ponto principal: o de não ter funcionamentos que parecem básicos. Sobre os cinco anos: racionalmente eu entendo perfeitamente que se trata de um desejo, e não uma previsão escrita em pedra. E que essa visão vai mudando ao longo do tempo. Mas é exatamente por essa razão é que eu me sinto fisicamente incapaz de descrever o que eu genuinamente gostaria de fazer ou onde eu gostaria de estar daqui a cinco anos.

Hoje em dia eu tenho um filho de quase 3 anos. Há cinco anos atrás, essa realidade parecia completamente impossivel. E era. Mas após uma pandemia, infinitas mudanças, ter um filho fez sentido. E é uma alegria.

Tenho um sentimento que tudo muda tanto, o tempo todo. Mas ao mesmo tempo, dentro das minhas contradições, sei que existe permanência, mesmo na mudança. Sei que daqui a cinco anos eu continuarei sendo mãe do meu filho. Mesmo que eu não seja a mesma mãe, e nem ele o mesmo filho.

Sei também que a minha incapacidade de projetar futuro cai em contradição com a minha incapacidade de lidar com o “deixa a vida me levar“. Eu quero projetar ou descobrir o futuro?

Acho que nenhum dos dois. Eu quero uma utopia para caminhar. Uma direção que converse comigo me faça descobrir um futuro que esteja alinhado com quem eu sou e com a minha própria noção de ética, moral, com um bom balanço entre individualidade e coletividade.

Qual é a utopia que movimenta o seu viver?

A ideia de ler é mais interessante que a leitura.

Eu tenho um sério problema com os livros. Trabalho com pesquisa, então a leitura é tarefa diária. Seja pontual, como artigos, relatórios ou notícias ou alguma leitura de mais fôlego, como um livro de temática relevante.

Dito isso, eu achava que detestava ler. E detestava mesmo. Não li todos os livros do vestibular. Talvez um ou dois, no máximo. Grande sertão veredas? Iracema? Passei longe. Quando cheguei na faculdade, li muito. Diversos clássicos da economia, já que meus professores preferiam que lêssemos autores no original. Não peguei gosto.

A leitura pra mim, então, sempre foi parte do processo de aprendizagem e fonte de informações. Não lia pelo ato da leitura, lia pela informação.

A questão é que, tendo essa opinião sobre a leitura, não consigo me haver com os livros. Olho para as opções, vejo vários livros cujo tema me interessa: economia, filosofia, ciências sociais. História não é muito pra mim. Um ou outro raro de alguma psicanalista. O meu problema não é ter interesse – é conseguir ler sem dormir.

A leitura começa, até é interessante. Mas logo fico cansada. Desinteressada. Desisto. Durmo com o livro na mão.

A ideia de ler é mais interessante do que a realidade da leitura.

Claro, já li muita coisa interessante. Claro, já tentei ler romances. Me disseram, certa vez, que são mais palatáveis. De fato, são. Meu último foi Em agosto nos vemos, do Gabriel García Marquez. Li no aplicativo do Kindle, pelo celular. É um ótimo antídoto para o uso constante de redes sociais. Gosto dos romances que me fazem pensar sobre a experiência da existência humana.

Mas sou péssima para escolhê-los. Quando vou à livraria, além de ter a habilidade de achar apenas livros que custem 80 reais (ou mais, inexplicavelmente), me atraio apenas por aqueles cuja temática parece fabulosa. Mas que não cativam o esforço da leitura. E me fazem dormir. O último desses foi um muito interessante, chamado Humanamente Possível, da Sarah Bakewell, que traça toda a história e personagens do pensamento humanista. O início foi empolgante. A leitura era boa, fluía. Tinha comprado o livro físico, que por mais gostoso que seja segurar em mãos e virar páginas físicas, com a possibilidade de fazer anotações nas margens, é um inconveniente. Precisaria levar ele para todo o canto, e ele é relativamente volumoso para caber na minha bolsa. Li algo como 50 páginas e nunca mais. Está lá, ao lado da minha cabeceira de cama. Esperando minha boa vontade de pegar e ler.

Confesso que quanto menos o livro me faz pensar, menos ele me interessa. Em romances, quanto menos me identifico com a protagonista ou alguma personagem importante, menor é meu interesse também. Acho que isso é parte narcísico e parte desejo de compreensão. Só realmente consigo compreender se me identifico. Não é assim com tudo? Medimos o mundo com a única régua possível; a nossa própria régua.

Estou ficando mais velha, ano passado virei os meus 30 anos. Aos 20 eu não lia e gostava de falar que não gostava de ler: era desconcertante para as pessoas, que geralmente me olhavam como alguém inteligente, não conseguirem entender como era possível eu falar um absurdo daqueles. Eu me divertia.

Agora aos 30, começo a me interessar mais pela leitura. Mas ainda não me desvinculei de uma visão utilitarista. Leio porque gosto de aprender e compreender o mundo, do meu próprio jeito. Leio porque lendo me encho de novas coisas para pensar e considerar. Leio porque preciso que meu entretenimento aconteça em lugares outros que a tela da TV ou do celular. Ainda que a minha leitura aconteça na tela de um kindle ou de um aplicativo.

Sinceramente, não tenho um bom parágrafo de conclusão. Sigo com as inquietações, tentando me entender com as palavras – lidas, escritas e faladas.

É na ausência que existe a esperança

Dia 16 de dezembro, entramos na última quinzena de 2024. Aacabo de voltar da reunião de pais da escola do meu filho, e começo a pensar em tudo o que vivemos nesse ano. Já podemos fazer a retrospectiva de 2024? Não me sinto preparada. Ainda há o que viver em quinze dias.

Penso no que eu desejei, ao final de 2023, enquanto os fogos de artifício brilhavam gloriosos sobre a minha cabeça. Eram desejos tímidos, o ano tinha sido cascudo. Desejei que meu filho se adaptasse à escola. Desejei que 2024 fosse um ano menos selvagem.

O primeiro desejo se realizou, e Zazá passou o ano sem grandes intercorrências. O segundo desejo, mais ou menos. Será que faltou especificidade? Talvez, nos meus desejos de 2025, eu precise ser mais específica. Não porque acredite que assim meu desejo será mais ou menos atendido pelos astros, por Deus ou pelo acaso. Mas porque assim será mais fácil de saber. Uma variável binária (foi atendido ou não foi atendido, 1 ou 0) é sempre mais fácil de interpretar do que uma variável qualitativa.

Mas também rechaço a ideia de desejos binários, vida binaria. Sou feliz ou sou triste? É melhor ser alegre que ser triste, é verdade, Vinícius. Mas a alegria não pode ser feita de binarismos. Se tenho, sou alegre. Se não tenho, sou triste. Existe uma beleza no não possuir. No não ter seus desejos realizados. É na ausência que existe a esperança.

Se não houvesse falta, não haveria desejo, não haveria pulsão, a vida não seria possível. Mas faltar dói. Dói tanto que é preciso esperançar a presença. Mas quando chega a presença, quem faz falta é a falta. 

Falta em excesso também desesperança. Falta em excesso impede a gente de sonhar, de desejar. Se falta tudo, como saber o que se quer? A falta e a presença devem dançar, assim, livrementes. Cada uma com a sua cena. Com as suas possibilidades e seus efeitos sobre as nossas vidas.

Precisa faltar, sempre falta. Só assim podemos desejar e viver. Mas precisa presençar também. Só assim teremos condições e repertório para ver o que nos falta. A falta impulsiona. A presença estrutura.

Já faz alguns anos que não faço lista de metas para o ano que começa. A vida corre e eu só consigo desejar. E aprendi também a não desejar muito, pra dar espaço para a vida surpreender. Desejo o suficiente para esperançar.

Tenho sim, desejos para 2025 que eu espero, com esperança, que se realizem. Mas também espero que as faltas me façam levantar pela manhã e esperançar dias melhores.

Meu coração balança tanto quanto meu ciclo menstrual

Meu coração balança tanto quanto meu ciclo menstrual. Num dia estou desolada: meus olhos não brilham mais, e sinto o mais profundo desejo de viver novas aventuras. No outro dia, ansiosa feito um cão atrás de um osso, anseio profundamente meu sangue, tanto quanto tomar uma decisão que parece ser impossível de ser tomada. Quero, não quero. Quero, não quero. Em seguida, meus ovários sentem que é hora de ter um novo filho, e preparam um óvulo. Mal eles sabem que essa opção já não é mais uma opção – um pequeno T feito de alguma fibra plástica, envolta por hormônios impedirão quaisquer vãs tentativas que eles façam de tentar gerar uma nova geração de mim mesma. Mas meus hormônios nunca saberão disso, e invadem meu corpo como fosse possível fazer eu me apaixonar de novo, pela 15º vez, pela mesma pessoa. E uma centelha firme de esperança, desejo, carinho e amor brilha completamente descontrolada. Quero de novo. Tentar de novo. Desejar de novo. Pegar na sua mão, te abraçar, cutucar sua barba e sonhar todos os nossos sonhos outra vez.
Em compensação, você é o mesmo. Como poderia não ser, em um tempo tão curto quanto alguns meros dias? Não há uma dança de hormônios e vozes ansiosas dançando livremente em seu cérebro. Não há infinitas possibilidades e realidades consideradas. Eu sempre fui corredeira brava, você sempre foi porto fixo.
Não me impede de te ler conforme as minhas lentes volúveis. Acho que você quer tentar de novo. Acho que você me ama e me quer por perto. De repente, me sinto carente e com falta de você. E sinto que por mais que eu segure sua mão, te peça beijos e abraços, eles nunca são tão completos quanto eu gostaria. Nessas horas eu queria mesmo é caber dentro do seu potinho e ser segurada e amada, apesar de toda a volatilidade.
Racionalmente, me repreendo: não tenho que caber num potinho. Volatilidade não precisa ser problema. Eu não sou um problema a ser ajustado.
Talvez essa seja a minha grande questão: você é porto. E eu queria ser o seu porto. Mas só posso ser sua água. Na tentativa de ser porto, virei aquela água parada onde a dengue se prolifera. Eu me tornei essa água parada. Eu deixei seu porto reservar minhas águas.
Será que podemos continuar? Continuar você sendo porto, e eu sendo água corrente? Amo você. Amo que você seja o meu porto. Eu só preciso ser água corrente de novo.

Bergdorf Goodman

Se você assistiu Sex and the City, certamente já ouviu esse nome. É uma loja de departamentos de luxo, que fica na “5th avenue” em “New York”. Nunca sequer pisei lá. Mas dado o advento da internet, me peguei passeando pelo site da loja, olhando peças de roupa que não me servem e nem posso pagar.

Tenho uma vida confortável, mas do alto da minha cadeira de escritório de servidora pública, usando uma jaqueta jeans com um rasgo no ombro – que eu tento me convencer que só dá mais personalidade para ela – penso em como apesar de não pertencer a essa realidade, eu prontamente aceitaria pertencer, se fosse possível.

Por mais fatores do que os eu consigo enumerar agora, talvez eu jamais compre sequer um lenço na Bergdorf Goodman. Eu nunca use um vestido Jason Wu, e nem use sapatos Gucci. (Mas se alguém souber de um lugar massa que venda algo parecido com essa Mary Jane Tabi da Maison Margiela, não se sintam tímidos em me enviar).

Em compensação, meu gosto por moda e pela auto expressão através dela sempre foi um desejo. Um desejo às vezes mais, às vezes menos realizado, mas sempre ali, presente. Certamente cerceado pelo meu tamanho – raras foram as vezes que eu realmente consegui vestir o que eu queria, com o caimento que eu queria, com a aparência que eu vislumbrava. Sempre tive um corpo gordo, ou mesmo quando não era gordo, sempre fui uma mulher grande, de pernas grossas. Moda foi um assunto de expressão, mas também de acomodação – o que eu consigo fazer com o que me cabe?

Depois de um dia completamente não memorável, lá em 2018, se não me falha a memória, meu namorado me disse que ele jamais tinha vestido algo desconfortável. Seja em termos de calçados – geralmente tênis – ou em termos de roupas, ele nunca tinha comprado uma blusa que só dava pra usar aberta, uma calça que tinha que usar com cinta modeladora, um vestido com uma fenda que precisava ser vigiada a noite inteira para não revelar demais. Ele nunca tinha comprado um sapato que pegava no dedinho, mas que tudo bem, porque dentro de um ou dois dias, ia lacear.

Eu olhava pra ele desacreditada. Como era possível? Essa não era a experiência normal de usar roupas? Como assim eu tinha me feito caber em roupas e sapatos pelos últimos 24 anos e isso não era completamente normal? Aceitável, ao mínimo?

Em descrença, eu não processei aquela informação na hora. Mas, olhando em retrospecto, aquela conversa mudou profundamente o modo como eu me vesti e comprei roupas nos últimos anos. E cara leitora, se você chegou aqui esperando uma história de superação, de como eu aprendi a lidar melhor com a moda e com o modo que eu compro as minhas roupas e coisas, eu sinto em lhe desapontar. Aquela conversa mudou profundamente o modo como eu entendo e vejo a moda possível – do dia a dia – mas para pior, acredito eu.

Aquela perplexidade somada a uma furiosa feminista que não entende como e por que a sua experiência de vida tem que ser menos confortável ou facilitada que a de seu namorado, passou por muitas transformações na vida prática (algumas coletivas, outras individuais): uma pandemia, uma maternidade, vários encontros e desencontros profissionais, umas várias mudanças de casa. Desde então, meu guarda roupas cresceu em número de shorts biker, leggings pretas, camisetas desajustadas e tênis confortáveis – muitos tênis confortáveis.

Depois da gravidez, especialmente, demorei para usar calça jeans. E mesmo assim, as calças jeans que uso, são as largas. Calças largas que não apertam em lugar algum. Skinny jeans? Nem sei o que é isso. Nem serviria na minha perna, também (que entre um lipedema e uma gravidez, engrossou ainda mais).

Me sinto amarga ao falara sobre isso. Domingo passado uma amiga muito querida veio me visitar. Ela é quase como uma antítese dessa minha amargura: tem uma bondade e uma positividade não tóxica que eu sinceramente não sei de onde brota. Não faço ideia de como ela aguenta conversar comigo e com a minha amargura, sem se deixar contaminar pela criticidade que faz de mim uma encantadora pessimista. De qualquer maneira, é essa amargura que eu sinto ao me vestir. Uma senhora ranzinza, dizendo que vai ficar desconfortável, que vai ficar ridículo, que vai ficar inadequado. Que eu não tenho criatividade o suficiente, que eu vou ter que ficar ajeitando a roupa de cinco em cinco minutos, que não é prático. Que o sapato vai apertar, que eu vou ter que carregar a criança, que eu vou ter que andar – então é inviável – que meus braços vão ficar de fora e as pessoas não vão me achar bonita, linda, ou gostosa. E ainda pior: eu mesma não vou me achar nem bonita, nem linda, muito menos gostosa.

Porque falo sobre a visão dos outros, mas sinceramente ligo pouco. O que me incomoda é a minha própria insatisfação e desdém com o que me visto, com como eu me visto. Com como eu me vejo, como eu vejo como eu me visto.

Se ser gostosa é uma questão de energia, cadê minha energia de gostosa? Ultimamente eu só ando sentindo uma energia de mãe cansada e ansiosa. Duas coisas que não combinam muito com saltos altos de luxo, vestidos chiques, lenços de seda, vestidos de grife.

Quantas mães cansadas compram na Bergdorf Goodman?

como ser humana, e não relações públicas de si mesma?

A questão da performance pra mim sempre foi pauta conjunta da construção e afirmação da minha personalidade e da minha identidade. Se sou muitas, e tenho muitas caras e trejeitos e os mostro convenientemente de acordo com os interlocutores com os quais eu me relaciono, estou sendo ou performando?

Apesar de ser a mesma pessoa, se eu pedir para outras pessoas traçarem o que elas acham quem eu sou, tenho certeza que consigo algumas respostas muito diferentes, e certamente contraditórias. Para alguns, posso ser inocente e tímida. Para outros, essas duas palavras não podiam estar mais distantes do meu jeito de ser.

Claro, a percepção das pessoas sobre você não é um produto direto das suas ações, palavras e interações com elas, já que também reflete quem elas próprias são, como enxergam o mundo e os outros. Mas para além disso, fazendo um esforço de talvez sublimar esse viés de qualidade de informação – como se fosse possível – eu reconheço que a forma como eu me expresso e performo para cada interlocutor é diferente.

Já foi uma crise identitária pra mim: quando mais nova, na longa transição da adolescência para a vida adulta, eu me acostumava tanto a performar de acordo com as expectativas do outro sobre mim, que me senti perdida e sufocada, sem saber, de verdade, quem eu era.

Os anos foram passando, terapia rolando, me reconheço enquanto indivíduo. Apesar da pouquíssima habilidade em lidar com a minha própria subjetividade, a minha real identidade vem dela. Brota dessa subjetividade como as folhas brotam de uma batata doce, se você mergulhar na água.

E aí cada folha é diferente, assim como eu sou diferente nas várias situações e ocasiões na vida. Sim, isso é esperado. Sim, isso está pacificado. Mas e quando, ao invés de apenas deixar as diferentes folhas existirem em seus diferentes formatos e tamanhos, eu venho e aparo as arestas delas, tentando performar uma exatidão e contornos bem definidos, assim como performar identidades bem acabadas, numa necessidade profunda de amor e aceitação? Se esse amor e aceitação vêm, como saber se eles vêm pela substância da folha (a parte da expressão da subjetividade que eu não posso controlar) ou pelo formato cuidadosamente recortado (a performance)?

É razoável eu requisitar o mesmo gosto e amor se não ofereço a mesma performance? Porque ultimamente, o desejo tem sido o da expressão radical. Não no sentido de extremado, mas no sentido de original. Minha folha radical é aquela que brota sem recortes. Sem controles, sem operar intencionalmente de acordo com a minha percepção e antecipação dos desejos alheios.

Até porque, penso eu, se me recorto a partir dos desejos alheios, como reconhecer e exercer o meu próprio desejo? Como conseguir sustentar a minha existência de identidade e expressão, se me preocupo em performance orientada para os resultados? Como ser humana e reconhecer a humanidade em mim – e nos outros – se oriento a minha existência por uma lógica de performance e resultado?

Sou certamente uma mulher do meu tempo. Mas se eu olhar para o meu próprio tempo, como ser humana, e não relações públicas de si mesma?

São dias e anos atípicos

Sábado, 6h15. Eu acordei mais cedo com insônia, algo que quase nunca acontece. Na verdade, é sempre o oposto: geralmente eu estou atrasada porque dormi demais. Mas hoje, acordei cedo e minha cabeça decidiu que já era hora de começar o dia. Depois de uns vinte minutos na cama e um celular que tinha descarregado completamente à noite, me impedindo de apenas me acabar em redes sociais, eu levantei, fiz um chá e fui dobrar algumas roupas do varal.

São dias e anos atípicos. Eu não gostava muito de chás. Era apenas água suja, eu dizia. Aprecio esse que está na minha caneca agora. É doce, frutal, uma mistura com chá branco que me traz um certo conforto que um café, agora, não conseguiria.

Há alguns anos, de uma maneira ou de outra, em um formato ou em outro, mantenho diários. O ato de escrever, com sentido ou não, me atendo aos fatos ou não, mas sempre seguindo um fluxo de consciência sem muito freio, sempre me fez bem. Penso sempre se alguém, além de mim, vai ler meus escritos. Se no futuro, meu filho, um dia vai ler esses diários pra conhecer a pessoa que eu sou para além de ser mãe dele.

Você escreve de alguma maneira? Em algum caderno, em algum aplicativo? Você tem um diário? Por um tanto de tempo, tinha uma vergonha boba de chamar de diário. Eu chamava de caderninho. Meus caderninhos. Um tanto inspirado nos cadernos de anotar a vida, da personagem Clara da Isabel Allende em A Casa dos Espíritos. Sempre achei bonita a ideia de anotar a vida para a posteridade. Eu talvez gostasse muito de ler diários dos meus avós, pais, tios. De épocas que eles não eram avós, pais ou tios. Quem era a minha avó? Quais eram seus sonhos? Suas angústias? Seus desejos? Posso apenas olhar para fotos (poucas, já que antigamente eram raras) e imaginar. Olhar nos olhos sérios daquela mulher jovem, que um dia ia ter uma neta que herdaria seu nome, e tentar imaginar quem era ela.

Quando escrevemos em diários, se temos a certeza de que ninguém (pelo menos no presente) há de ler o que escrevemos, Somos livres. Livres para expressar algumas das centelhas mais particulares que nós temos.

Termino esse post com uma frase de uma autora americana chamada Joan Didion, que descobri esse ano, e muito expressa meus sentimentos sobre meus diários:

O motivo de se manter um diário nunca foi, e nem é, ter um relato factual do que fiz ou pensei. Isso seria um impulso completamente diferente, um instinto pela verdade que eu invejo às vezes, mas não possuo. (…) Escrevo conforme meu humor.”

Joan Didion, escritora americana em um artigo de 1968