Planejar e continuar planejando

Eu amo planejar. Eu amo tudo o que envolve o planejamento. Pensar nos objetivos, nas necessidades, nas etapas. Abrir o calendário, ver datas, possibilidades, o que vai ser exequível e o que vai ter que ser deixado pra trás, como um sonho de uma noite de verão.

Gosto de personalizar o processo. Gosto de entender que cada objetivo, objeto ou projeto tem sua própria dinâmica, e que precisa, talvez, de um método diferente de planejamento.

Gosto de formalizar tudo isso num documento visualmente agradável, funcional. Que não demande tempo demais para ser atualizado, mas que ainda marque o progresso feito.

Não importa o meio: digital ou analógico, notion, google calendar, miro, uma apresentação em ppt, uma tabela de excel, um caderno ou uma cartolina. Tudo depende do que faz mais sentido.

Eu realmente amo todos os aspectos do planejamento. Curiosamente, a minha tragédia é a execução.

Ter que dar os primeiros passos, cumprir as tarefas cuidadosamente pensadas para serem executadas num prazo determinado (com óbvio espaço para acomodar imprevistos e atrasos), prazo atrás de prazo. A execução é uma tragédia.

O que me interessa no planejamento – além da minha predileção por papelaria, cadernos e canetas – é a ideação. No planejamento, tudo é da ordem das ideias, e eu consigo fazer o que mais gosto: pensar.

No planejamento tudo é possível, e minhas ideias encontram o máximo de concretude que elas aceitam. Uma ideia abstrata (como a entrega de um projeto de pesquisa, por exemplo) vai se tornando palpável, com a fragmentação de tarefas, etapas e prazos. O que fazer, quando fazer, para que aquele projeto seja entregue no prazo combinado. Algo completamente ideal, ganha numa abstração de grau menor, alguma concretude. A concretude do papel, da escrita, da definição.

Aquela ideia amorfa ganha contorno, ganha corpo. Mas veja, ainda é um corpo etéreo, um corpo não-corpo, porque ainda permanece no campo das ideias. É uma auto-realização, sem o comprometimento com um status final de concretude que a execução exige.

Planejar é bom, é bonito: fica nas ideias sem a feiúra da concretude áspera da execução, onde o que é executado não se iguala ao que foi planejado.

Executar também é fracassar. É aceitar que as suas capacidades são limitadas, e que nem tudo é possível. O que foi possível não é nem tão grandioso, nem tão gostoso como o que foi planejado.

Mas engrandecer o planejamento e denunciar a feiúra da execução posa um problema fundamental: as coisas acontecem, são sentidas, cheiradas, pegadas, invertidas, destruídas e reconstruídas na execução. As coisas – e a vida, consequentemente – só existem durante e após a execução. As ideias não existem concretamente. As ideias produzem efeitos, as ideias condicionam a execução, as ideias satisfazem um desejo de controle e imaginação. Mas as ideias ainda são só o que podem ser: ideações da realidade.

E ao fim e ao cabo, as ideias precisam da concretude da execução para se criarem em novas realidades, novas possibilidades e novas ideias. A execução também se faz necessária para as ideias.

Talvez o planejamento seja essa tentativa de ponte entre as ideias e a execução. Talvez o planejamento seja uma ideia de execução que eu consigo sustentar sem sofrer, sem me comprometer. Sem encarar os meus limites de executar – sem feiúra, sem concretude.

A feiúra da concretude vem dos limites do executor. Dos meus limites de execução. As ideias também têm seus limites. Mas os da execução são muito maiores. Meu desencontro com a execução, então, é um desencontro com os meus limites. Reconhecer as falhas da execução significa reconhecer até onde eu consigo ir. Até onde eu dou conta de ir. E minhas ideias sempre chegaram mais longe do que minhas execuções.

Se haver com os próprios limites é difícil, pois é necessário se haver com a sua humanidade. Pra mim, significa pôr à prova minhas capacidades, mostrar quem eu sou e como eu sou. Significa dizer: eu venho até aqui, é isso que eu consigo fazer.

E em seguida, olhar para o que fiz e questionar: está bom o suficiente? O que eu dei conta de fazer, foi suficiente? Foi mais que suficiente, foi bom? Eu sou suficiente? Eu sou boa?

Se haver com a pópria humanidade significa também reconhecer que essas são perguntas inócuas, sem sentido real – uma vez que a própria humanidade é inerentemente suficiente. Porque quando se fala de humanidade, não se fala de suficiência, se fala de possibilidade. E todas as possibilidades são suficientes, todas as possibilidades são existíveis.

A dicotomia entre planejar e executar desemboca, então, no ser, no existir e no desejar. Planejar é desejar, executar é obter: obter a concretude da própria humanidade.

Confiar no próprio cérebro

O último post foi em janeiro. Sim, eu sei. Não, não vou me explicar sobre isso.

Inclusive, eu estava pensando esses dias sobre confiar no próprio cérebro. Eu entrei numa fase de Alanis Morissette faz algumas boas semanas. Completamente obcecada por duas músicas em específico: You oughta know e Ironic. Eu certamente fiquei obcecada por aprender a letra pra conseguir cantar junto (agora estou levemente assim com La solitudine, da Laura Pausini. Alô Terra Nostra!).

Mas tem uma parte da música, especialmente da You oughta know, que eu – por mais que soubesse racionalmente a letra – não cosneguia encaixar as palavras no ritmo:

(…) and the love that you gave that we made wasn’t able to make it enough for you to be open wide, noooo / and every time you speak her name does she know how you told me you would hold me until you died? ‘Til you died, but you’re still alive (…)

Era absolutamente impossível. Depois de um tempo, eu acertava uma vez ou outra. Mas na maioria das vezes era simplesmente impossível.

Eventualmente, eu fui superando. Abrindo mão, começando a me fixar em outras coisas. Até que esses dias eu estava cantando ela despretensiosamente, e saiu. E de novo. E de novo. Minha boca só acompanhou meu cérebro. E eu cantei. No ritmo.

Eu achei – por falta de palavra melhor, apesar da repetição textual – absolutamente incrivel. Meu cérebro resolveu meu problema. De maneira autônoma.

Será possível, meu cérebro resolver problemas de maneira não consciente? Será que o que eu preciso é confiar mais no meu cérebro? Confiar que ele vai dar conta de pensar e resolver coisas, ainda que eu não fique completamente obcecada, pensando nelas de maneira consciente o tempo todo?

Será essa uma maneira de ele me dizer que eu preciso abrir mão de tentar achar uma saída racionalmente forçada pra tudo? Será que eu preciso pensar o tempo todo? Será que meu cérebro é capaz de cuidar de mim?

Claro que há um certo nível de despersonalização nesse raciocínio – já que eu tento separar meu cérebro de mim mesma, e tento entender que ele e eu somos dois entes diferentes que habitam o mesmo corpo – que inclusive aparece agora como uma terceira entidade.

E que essa despersonalização é falsa, ou no mínimo, fantasiosa, já que eu sou todas essas coisas juntas: a minha identidade, personalidade, consciência; meu cérebro e meu corpo.

Mas para fins didáticos, para mim mesma, eu vou permitir essa dissociação e viver com ela. E tentar não obcecar sobre ela a partir do meu fluxo de consciência. É possível? You oughta know.

Repertório, futuro e utopia

Sentada numa padaria , esperando meu café, sento e escuto um grupo de mulheres mais velhas comentarem sobre a faculdade de arquitetura de uma das filhas. A filha em questão fora fazer um trabalho de faculdade em Barcelona, sobre a ocupação de skatistas uma determinada praça. Não ficou claro pra mim onde a filha faz faculdade, mas tenho um bom papite que o curso é de arquitetura e urbanismo.

Não consigo desligar da conversa. Assim como não consigo desligar de duas crianças conversando com a mãe e correndo ao meu lado. A mãe os elogia, falando como eles são lindos e adoráveis. Não discordo. Não por achar isso particularmente dessas duas crianças, mas porque sei que me sinto assim com o meu próprio filho e seu jeito de viver e se expressar.

Um dos cenários me faz sentir completamente distante. O outro me traz referências íntimas. Não é sempre assim que lemos o mundo? A partir da nossa própria ótica, repertório, visão de mundo?

Entendo profundamente que cada indivíduo vai carregar consigo as suas histórias, carregadas de valores e julgamentos, formados em algum momento de sua vida. Mas também entendo que o todo não é uma soma das partes, e dividimos, em algum grau, uma moral e ética coletivas. Seja de maneira formal, como as leis escritas, seja a partir de um acordo tácito, como a convenção social de cumprimentar as pessoas que conhecemos quando as avistamos. Há também as experiências biológicas que nos unem: a experiência da gravidez, do parto de uma criança – por mais que seja completamente mediada por aspectos particulares, há uma importante experiência compartilhada.

Dentro dessa ideia de experiência compartilhada, alguns aspectos que eu via e vejo em outras pessoas, não consigo ver em mim. Um em específico é a fantasia de uma capacidade de “apenas aproveitar a vida”.

Sabe aquele setimento tão bem descrito pelo Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar, leva eu”? Eu nunca soube. Não consigo entender o conceito de não ter um sentido pra vida.

Não falo em termos de controle. Eu não preciso saber o que vai acontecer, e quando e como. Inclusive, uma das perguntas que eu mais tenho dificuldade de responder é a clássica dos coaches: “onde você se vê daqui a cinco anos?”. Amado, eu não sei o que vai acontecer amanhã, não sei como os acontecimentos do próximo ano vão me mudar (ou não). Como dizia Keynes, um famoso economista, não há elementos matemáticos suficientes para fazermos previsões adequadas sobre o futuro. Não, essa não é a frase ipsis litteris, mas passa a ideia geral.

Tudo bem que Keynes estava falando sobre o modo de produção capitalista, em especial dos mercados financeiros. Eu, longe disso. Mas estamo mesmo na era de nos entendermos como empresas de nós mesmos, não?

Voltemos ao meu ponto principal: o de não ter funcionamentos que parecem básicos. Sobre os cinco anos: racionalmente eu entendo perfeitamente que se trata de um desejo, e não uma previsão escrita em pedra. E que essa visão vai mudando ao longo do tempo. Mas é exatamente por essa razão é que eu me sinto fisicamente incapaz de descrever o que eu genuinamente gostaria de fazer ou onde eu gostaria de estar daqui a cinco anos.

Hoje em dia eu tenho um filho de quase 3 anos. Há cinco anos atrás, essa realidade parecia completamente impossivel. E era. Mas após uma pandemia, infinitas mudanças, ter um filho fez sentido. E é uma alegria.

Tenho um sentimento que tudo muda tanto, o tempo todo. Mas ao mesmo tempo, dentro das minhas contradições, sei que existe permanência, mesmo na mudança. Sei que daqui a cinco anos eu continuarei sendo mãe do meu filho. Mesmo que eu não seja a mesma mãe, e nem ele o mesmo filho.

Sei também que a minha incapacidade de projetar futuro cai em contradição com a minha incapacidade de lidar com o “deixa a vida me levar“. Eu quero projetar ou descobrir o futuro?

Acho que nenhum dos dois. Eu quero uma utopia para caminhar. Uma direção que converse comigo me faça descobrir um futuro que esteja alinhado com quem eu sou e com a minha própria noção de ética, moral, com um bom balanço entre individualidade e coletividade.

Qual é a utopia que movimenta o seu viver?

Como querer controle e liberdade ao mesmo tempo?

Cabeça cheia, pouca atividade. Quando minha cabeça começa a pipocar de pensamentos, poucas são as coisas que reduzem a velocidade – e voracidade – do meu diálogo interno. Muitas vezes ele se apressa tanto, que perde a forma de palavras e frases, e se torna um fluxo completamente etéreo de imaginação, atenção e loucura. As ideias não permanecem, e quase nunca consigo lembrar sobre o que eu estava pensando, ou o que iniciou uma cadeia de histórias.

Uma coisa que meu instinto de sobrevivência no caos sempre resgata, é a ideia de fazer listas, me replanejar, usar um novo método de organização. Talvez esse funcione, eu tento me enganar. Pode ser um novo bullet journal, uma agenda, um aplicativo, um punhado de papéis soltos. Nem sempre – na verdade, quase nunca – esse teste de método envolve algum tipo de compra, mas quase sempre ele envolve um novo consumo de algum serviço gratuito, ou conteúdo disponível.

Por anos e anos, usei o método de Bullet Journal (Diário em Tópicos). É um método relativamente conhecido hoje em dia, e me apoiou por muitos anos. Hoje em dia, não consigo exatamente aplicá-lo. Uso uma agenda tradicional, o aplicativo Notion, um diário para quando preciso descarregar minha cabeça, e agora o Obsidian para micro escrita, numa tentativa de diminuir meu uso de redes sociais. Cada um tem a sua função, e por mais que separadamente eles até que funcionem bem, não têm a menor comunicação.

Precisamos mesmo de uma miríade de estratégias para tentar capturar o controle das nossas vidas?

Eu, sinceramente, quando escrevo e leio essa pergunta, me retorço numa aversão profunda à essa ideia. Essa pergunta me coloca um outro questionamento: e eu quero controlar minha vida para quê?

Certamente, a resposta passaria por uma palavra que também me traz arrepios: produtividade. Entender minha vida como algo meramente produtivo me causa um profundo horror, que, conjugado com a minha desesperança na barbárie do capitalismo, me faz contorcer na cadeira.

É um modo de funcionamento completamente paradoxal: ao mesmo tempo que desejo o controle, eu desejo a liberdade. E como ter liberdade sem produzir, para reproduzir a minha própria subsistência? O que, então, é a liberdade? Como me dar condições para ter espaço para sentir meus sentimentos, viver qualquer vida que eu deseje viver, sem ser sequestrada pelo desejo do controle?

Como querer controle e liberdade, ao mesmo tempo?