59 abas abertas: Bate forte o tambor, eu quero tic tic tic tic tac

Banda Carrapicho. Fonte LastFm.

Recentemente eu descobri que nem todo mundo tem um diálogo interno contínuo na própria cabeça. Algumas almas abençoadas, quando não estão lendo, conversando ou pensando voluntariamente sobre alguma coisa, têm um silêncio interno que os permite apenas viver. Como vi em um reels essa semana – essas almas não têm 59 abas abertas do Youtube tocando ao mesmo tempo sobre assuntos diferentes o tempo todo, num monólogo constante.

Minha cabeça ansiosa parametriza a realidade de uma maneira ansiosa. Não é um sintoma fruto de uma causa profunda, mas um modo de experimentar a vida.

Há algum tempo, eu e minha psiquiatra decidimos que eu devia experimentar um ansiolítico. Fomos ajustando a dose até que as abas (pelo menos a maioria delas) fecharam. Poderia ter sido ótimo. Mas na verdade, me senti péssima. A dose do ansiolítico que fazia o monólogo interno cessar, era uma dose que me deixava letárgica, com sono, sem conseguir articular ideias e pensamentos como antes eu era capaz. Apesar disso, foi nessa época que eu consegui sentar na garagem da minha casa, e apenas observar a chuva cair.

Depois dessa experiência acredito que, por enquanto, ao invés de tentar fechar as abas da minha cabeça, eu preciso apenas dar pause nos vídeos, e ter a capacidade de tocar um de cada vez. Pra mim isso passa pelo abandono da racionalidade excessiva, e um acolhimento maior de mim mesma e das minha emoções – por mais feias que elas sejam – e uma desidentificação entre quem eu sou e os pensamentos que me surgem.

De qualquer maneira, fora do mundo abstrato das ideias, a realidade concreta bate forte como o tambor tic tic tic tic tac, e esse cérebro ansioso lida de uma maneira pouquíssimo íntima com a realidade. Na verdade, um dos motivos para esse cérebro engajar tanto nos infinitos fluxos de pensamento é escapar de realidade, e é como se, ao se perder na racionalidade, ele pudesse temporariamente se esquivar da concretude externa.