Meu coração balança tanto quanto meu ciclo menstrual. Num dia estou desolada: meus olhos não brilham mais, e sinto o mais profundo desejo de viver novas aventuras. No outro dia, ansiosa feito um cão atrás de um osso, anseio profundamente meu sangue, tanto quanto tomar uma decisão que parece ser impossível de ser tomada. Quero, não quero. Quero, não quero. Em seguida, meus ovários sentem que é hora de ter um novo filho, e preparam um óvulo. Mal eles sabem que essa opção já não é mais uma opção – um pequeno T feito de alguma fibra plástica, envolta por hormônios impedirão quaisquer vãs tentativas que eles façam de tentar gerar uma nova geração de mim mesma. Mas meus hormônios nunca saberão disso, e invadem meu corpo como fosse possível fazer eu me apaixonar de novo, pela 15º vez, pela mesma pessoa. E uma centelha firme de esperança, desejo, carinho e amor brilha completamente descontrolada. Quero de novo. Tentar de novo. Desejar de novo. Pegar na sua mão, te abraçar, cutucar sua barba e sonhar todos os nossos sonhos outra vez.
Em compensação, você é o mesmo. Como poderia não ser, em um tempo tão curto quanto alguns meros dias? Não há uma dança de hormônios e vozes ansiosas dançando livremente em seu cérebro. Não há infinitas possibilidades e realidades consideradas. Eu sempre fui corredeira brava, você sempre foi porto fixo.
Não me impede de te ler conforme as minhas lentes volúveis. Acho que você quer tentar de novo. Acho que você me ama e me quer por perto. De repente, me sinto carente e com falta de você. E sinto que por mais que eu segure sua mão, te peça beijos e abraços, eles nunca são tão completos quanto eu gostaria. Nessas horas eu queria mesmo é caber dentro do seu potinho e ser segurada e amada, apesar de toda a volatilidade.
Racionalmente, me repreendo: não tenho que caber num potinho. Volatilidade não precisa ser problema. Eu não sou um problema a ser ajustado.
Talvez essa seja a minha grande questão: você é porto. E eu queria ser o seu porto. Mas só posso ser sua água. Na tentativa de ser porto, virei aquela água parada onde a dengue se prolifera. Eu me tornei essa água parada. Eu deixei seu porto reservar minhas águas.
Será que podemos continuar? Continuar você sendo porto, e eu sendo água corrente? Amo você. Amo que você seja o meu porto. Eu só preciso ser água corrente de novo.
Texto
Bergdorf Goodman
Se você assistiu Sex and the City, certamente já ouviu esse nome. É uma loja de departamentos de luxo, que fica na “5th avenue” em “New York”. Nunca sequer pisei lá. Mas dado o advento da internet, me peguei passeando pelo site da loja, olhando peças de roupa que não me servem e nem posso pagar.
Tenho uma vida confortável, mas do alto da minha cadeira de escritório de servidora pública, usando uma jaqueta jeans com um rasgo no ombro – que eu tento me convencer que só dá mais personalidade para ela – penso em como apesar de não pertencer a essa realidade, eu prontamente aceitaria pertencer, se fosse possível.
Por mais fatores do que os eu consigo enumerar agora, talvez eu jamais compre sequer um lenço na Bergdorf Goodman. Eu nunca use um vestido Jason Wu, e nem use sapatos Gucci. (Mas se alguém souber de um lugar massa que venda algo parecido com essa Mary Jane Tabi da Maison Margiela, não se sintam tímidos em me enviar).
Em compensação, meu gosto por moda e pela auto expressão através dela sempre foi um desejo. Um desejo às vezes mais, às vezes menos realizado, mas sempre ali, presente. Certamente cerceado pelo meu tamanho – raras foram as vezes que eu realmente consegui vestir o que eu queria, com o caimento que eu queria, com a aparência que eu vislumbrava. Sempre tive um corpo gordo, ou mesmo quando não era gordo, sempre fui uma mulher grande, de pernas grossas. Moda foi um assunto de expressão, mas também de acomodação – o que eu consigo fazer com o que me cabe?
Depois de um dia completamente não memorável, lá em 2018, se não me falha a memória, meu namorado me disse que ele jamais tinha vestido algo desconfortável. Seja em termos de calçados – geralmente tênis – ou em termos de roupas, ele nunca tinha comprado uma blusa que só dava pra usar aberta, uma calça que tinha que usar com cinta modeladora, um vestido com uma fenda que precisava ser vigiada a noite inteira para não revelar demais. Ele nunca tinha comprado um sapato que pegava no dedinho, mas que tudo bem, porque dentro de um ou dois dias, ia lacear.
Eu olhava pra ele desacreditada. Como era possível? Essa não era a experiência normal de usar roupas? Como assim eu tinha me feito caber em roupas e sapatos pelos últimos 24 anos e isso não era completamente normal? Aceitável, ao mínimo?
Em descrença, eu não processei aquela informação na hora. Mas, olhando em retrospecto, aquela conversa mudou profundamente o modo como eu me vesti e comprei roupas nos últimos anos. E cara leitora, se você chegou aqui esperando uma história de superação, de como eu aprendi a lidar melhor com a moda e com o modo que eu compro as minhas roupas e coisas, eu sinto em lhe desapontar. Aquela conversa mudou profundamente o modo como eu entendo e vejo a moda possível – do dia a dia – mas para pior, acredito eu.
Aquela perplexidade somada a uma furiosa feminista que não entende como e por que a sua experiência de vida tem que ser menos confortável ou facilitada que a de seu namorado, passou por muitas transformações na vida prática (algumas coletivas, outras individuais): uma pandemia, uma maternidade, vários encontros e desencontros profissionais, umas várias mudanças de casa. Desde então, meu guarda roupas cresceu em número de shorts biker, leggings pretas, camisetas desajustadas e tênis confortáveis – muitos tênis confortáveis.
Depois da gravidez, especialmente, demorei para usar calça jeans. E mesmo assim, as calças jeans que uso, são as largas. Calças largas que não apertam em lugar algum. Skinny jeans? Nem sei o que é isso. Nem serviria na minha perna, também (que entre um lipedema e uma gravidez, engrossou ainda mais).
Me sinto amarga ao falara sobre isso. Domingo passado uma amiga muito querida veio me visitar. Ela é quase como uma antítese dessa minha amargura: tem uma bondade e uma positividade não tóxica que eu sinceramente não sei de onde brota. Não faço ideia de como ela aguenta conversar comigo e com a minha amargura, sem se deixar contaminar pela criticidade que faz de mim uma encantadora pessimista. De qualquer maneira, é essa amargura que eu sinto ao me vestir. Uma senhora ranzinza, dizendo que vai ficar desconfortável, que vai ficar ridículo, que vai ficar inadequado. Que eu não tenho criatividade o suficiente, que eu vou ter que ficar ajeitando a roupa de cinco em cinco minutos, que não é prático. Que o sapato vai apertar, que eu vou ter que carregar a criança, que eu vou ter que andar – então é inviável – que meus braços vão ficar de fora e as pessoas não vão me achar bonita, linda, ou gostosa. E ainda pior: eu mesma não vou me achar nem bonita, nem linda, muito menos gostosa.
Porque falo sobre a visão dos outros, mas sinceramente ligo pouco. O que me incomoda é a minha própria insatisfação e desdém com o que me visto, com como eu me visto. Com como eu me vejo, como eu vejo como eu me visto.
Se ser gostosa é uma questão de energia, cadê minha energia de gostosa? Ultimamente eu só ando sentindo uma energia de mãe cansada e ansiosa. Duas coisas que não combinam muito com saltos altos de luxo, vestidos chiques, lenços de seda, vestidos de grife.
Quantas mães cansadas compram na Bergdorf Goodman?
como ser humana, e não relações públicas de si mesma?
A questão da performance pra mim sempre foi pauta conjunta da construção e afirmação da minha personalidade e da minha identidade. Se sou muitas, e tenho muitas caras e trejeitos e os mostro convenientemente de acordo com os interlocutores com os quais eu me relaciono, estou sendo ou performando?
Apesar de ser a mesma pessoa, se eu pedir para outras pessoas traçarem o que elas acham quem eu sou, tenho certeza que consigo algumas respostas muito diferentes, e certamente contraditórias. Para alguns, posso ser inocente e tímida. Para outros, essas duas palavras não podiam estar mais distantes do meu jeito de ser.
Claro, a percepção das pessoas sobre você não é um produto direto das suas ações, palavras e interações com elas, já que também reflete quem elas próprias são, como enxergam o mundo e os outros. Mas para além disso, fazendo um esforço de talvez sublimar esse viés de qualidade de informação – como se fosse possível – eu reconheço que a forma como eu me expresso e performo para cada interlocutor é diferente.
Já foi uma crise identitária pra mim: quando mais nova, na longa transição da adolescência para a vida adulta, eu me acostumava tanto a performar de acordo com as expectativas do outro sobre mim, que me senti perdida e sufocada, sem saber, de verdade, quem eu era.
Os anos foram passando, terapia rolando, me reconheço enquanto indivíduo. Apesar da pouquíssima habilidade em lidar com a minha própria subjetividade, a minha real identidade vem dela. Brota dessa subjetividade como as folhas brotam de uma batata doce, se você mergulhar na água.

E aí cada folha é diferente, assim como eu sou diferente nas várias situações e ocasiões na vida. Sim, isso é esperado. Sim, isso está pacificado. Mas e quando, ao invés de apenas deixar as diferentes folhas existirem em seus diferentes formatos e tamanhos, eu venho e aparo as arestas delas, tentando performar uma exatidão e contornos bem definidos, assim como performar identidades bem acabadas, numa necessidade profunda de amor e aceitação? Se esse amor e aceitação vêm, como saber se eles vêm pela substância da folha (a parte da expressão da subjetividade que eu não posso controlar) ou pelo formato cuidadosamente recortado (a performance)?
É razoável eu requisitar o mesmo gosto e amor se não ofereço a mesma performance? Porque ultimamente, o desejo tem sido o da expressão radical. Não no sentido de extremado, mas no sentido de original. Minha folha radical é aquela que brota sem recortes. Sem controles, sem operar intencionalmente de acordo com a minha percepção e antecipação dos desejos alheios.
Até porque, penso eu, se me recorto a partir dos desejos alheios, como reconhecer e exercer o meu próprio desejo? Como conseguir sustentar a minha existência de identidade e expressão, se me preocupo em performance orientada para os resultados? Como ser humana e reconhecer a humanidade em mim – e nos outros – se oriento a minha existência por uma lógica de performance e resultado?
Sou certamente uma mulher do meu tempo. Mas se eu olhar para o meu próprio tempo, como ser humana, e não relações públicas de si mesma?
São dias e anos atípicos
Sábado, 6h15. Eu acordei mais cedo com insônia, algo que quase nunca acontece. Na verdade, é sempre o oposto: geralmente eu estou atrasada porque dormi demais. Mas hoje, acordei cedo e minha cabeça decidiu que já era hora de começar o dia. Depois de uns vinte minutos na cama e um celular que tinha descarregado completamente à noite, me impedindo de apenas me acabar em redes sociais, eu levantei, fiz um chá e fui dobrar algumas roupas do varal.
São dias e anos atípicos. Eu não gostava muito de chás. Era apenas água suja, eu dizia. Aprecio esse que está na minha caneca agora. É doce, frutal, uma mistura com chá branco que me traz um certo conforto que um café, agora, não conseguiria.
Há alguns anos, de uma maneira ou de outra, em um formato ou em outro, mantenho diários. O ato de escrever, com sentido ou não, me atendo aos fatos ou não, mas sempre seguindo um fluxo de consciência sem muito freio, sempre me fez bem. Penso sempre se alguém, além de mim, vai ler meus escritos. Se no futuro, meu filho, um dia vai ler esses diários pra conhecer a pessoa que eu sou para além de ser mãe dele.
Você escreve de alguma maneira? Em algum caderno, em algum aplicativo? Você tem um diário? Por um tanto de tempo, tinha uma vergonha boba de chamar de diário. Eu chamava de caderninho. Meus caderninhos. Um tanto inspirado nos cadernos de anotar a vida, da personagem Clara da Isabel Allende em A Casa dos Espíritos. Sempre achei bonita a ideia de anotar a vida para a posteridade. Eu talvez gostasse muito de ler diários dos meus avós, pais, tios. De épocas que eles não eram avós, pais ou tios. Quem era a minha avó? Quais eram seus sonhos? Suas angústias? Seus desejos? Posso apenas olhar para fotos (poucas, já que antigamente eram raras) e imaginar. Olhar nos olhos sérios daquela mulher jovem, que um dia ia ter uma neta que herdaria seu nome, e tentar imaginar quem era ela.
Quando escrevemos em diários, se temos a certeza de que ninguém (pelo menos no presente) há de ler o que escrevemos, Somos livres. Livres para expressar algumas das centelhas mais particulares que nós temos.
Termino esse post com uma frase de uma autora americana chamada Joan Didion, que descobri esse ano, e muito expressa meus sentimentos sobre meus diários:
“O motivo de se manter um diário nunca foi, e nem é, ter um relato factual do que fiz ou pensei. Isso seria um impulso completamente diferente, um instinto pela verdade que eu invejo às vezes, mas não possuo. (…) Escrevo conforme meu humor.”
Joan Didion, escritora americana em um artigo de 1968
Eu era mais magra, mais bonita e mais esperançosa.
Estava procurando uma foto 3×4 nos meus arquivos online. Vasculhando pastas antigas, encontrei fotos de uns 10 anos atrás. Os sentimentos ficaram muito misturados. Eu era muito bonita. Estava no relativamente no início da minha vida sexual, e todo aquele tesão, aquela disposição e desejo completamente pulsantes, são visíveis. Pelo menos pra mim.
Não quero soar como uma pessoa tragicamente nostálgica, escrevendo sobre como, um dia, as cores eram mais vivas e a vida era melhor. Longe disso, a Theodora de hoje é uma mistura entre a que já fui nessas fotos e as experiências e decisões que passei ao longo dos anos. Não se trata de glorificar o passado condenando o presente e lamentando o futuro. Se trata de celebrar o que um dia eu já vivi e como eu existo e coexisto com todas as versões de mim mesma.
Mas admito que as transformações durante esses anos foram muitas, e me peguei sentido uma certa tristeza vazia em perceber que aquela moça bonita das fotos era eu, mas não é mais.
Minha construção social enquanto mulher me faz lamentar um corpo que já não mais tenho. Depois de muitos quilos adicionados ao meu corpo, uma pandemia, uma gravidez, e anos de ansiedade desmedida, sou fisicamente outra pessoa. Mas não apenas. A vida se tornou mais complicada, mais complexa, mais demandante e menos flexível. Hoje tenho mais repertório, mais amor, mais inteligência e um filho maravilhoso que eu não trocaria por nada. Mas também tenho mais responsabilidades, mais temores, mais questões.
Me pergunto: de onde, então, brota a leve tristeza que me faz contemplar as fotos antigas? Seria ela uma tristeza boa, daquelas que te trazem a consciência dos vários lugares que você já pertenceu? Se eu não quero viver de novo aquela vida que vejo estampada nas fotos, porque o luto por ela ainda persiste?
Sinceramente, acredito que o luto persiste não pelo passado, mas pelo futuro. Eu definitivamente não sou uma das pessoas que vê o copo meio cheio. Entre crise climática, crise econômica, crise política e uma ameaça constante de “você não vai conseguir se aposentar”, é difícil ter esperança no futuro. Claro, há uma responsabilidade clara e ativa sobre mim mesma de construir o futuro que eu quero pra mim, pelo menos num certo nível individual. Mas nem só como indivíduo vive um humano. As perspectivas coletivas se amontoam de uma maneira que eu não só me sinto cética sobre fazer a diferença, como também rio meio abobada da situação, num riso desesperançado de quem não daria conta de tratar do assunto de maneira completamente séria, e precisa do alívio cômico para suavizar o tom da conversa.
Enquanto minha fé no futuro se abala, a tristeza pelo luto do passado e pelo luto do futuro brotam em mim toda vez que eu vejo minhas belas fotos antigas, e meu superego me diz que eu era mais magra, mais bonita e mais esperançosa.
Como querer controle e liberdade ao mesmo tempo?
Cabeça cheia, pouca atividade. Quando minha cabeça começa a pipocar de pensamentos, poucas são as coisas que reduzem a velocidade – e voracidade – do meu diálogo interno. Muitas vezes ele se apressa tanto, que perde a forma de palavras e frases, e se torna um fluxo completamente etéreo de imaginação, atenção e loucura. As ideias não permanecem, e quase nunca consigo lembrar sobre o que eu estava pensando, ou o que iniciou uma cadeia de histórias.
Uma coisa que meu instinto de sobrevivência no caos sempre resgata, é a ideia de fazer listas, me replanejar, usar um novo método de organização. Talvez esse funcione, eu tento me enganar. Pode ser um novo bullet journal, uma agenda, um aplicativo, um punhado de papéis soltos. Nem sempre – na verdade, quase nunca – esse teste de método envolve algum tipo de compra, mas quase sempre ele envolve um novo consumo de algum serviço gratuito, ou conteúdo disponível.
Por anos e anos, usei o método de Bullet Journal (Diário em Tópicos). É um método relativamente conhecido hoje em dia, e me apoiou por muitos anos. Hoje em dia, não consigo exatamente aplicá-lo. Uso uma agenda tradicional, o aplicativo Notion, um diário para quando preciso descarregar minha cabeça, e agora o Obsidian para micro escrita, numa tentativa de diminuir meu uso de redes sociais. Cada um tem a sua função, e por mais que separadamente eles até que funcionem bem, não têm a menor comunicação.
Precisamos mesmo de uma miríade de estratégias para tentar capturar o controle das nossas vidas?
Eu, sinceramente, quando escrevo e leio essa pergunta, me retorço numa aversão profunda à essa ideia. Essa pergunta me coloca um outro questionamento: e eu quero controlar minha vida para quê?
Certamente, a resposta passaria por uma palavra que também me traz arrepios: produtividade. Entender minha vida como algo meramente produtivo me causa um profundo horror, que, conjugado com a minha desesperança na barbárie do capitalismo, me faz contorcer na cadeira.
É um modo de funcionamento completamente paradoxal: ao mesmo tempo que desejo o controle, eu desejo a liberdade. E como ter liberdade sem produzir, para reproduzir a minha própria subsistência? O que, então, é a liberdade? Como me dar condições para ter espaço para sentir meus sentimentos, viver qualquer vida que eu deseje viver, sem ser sequestrada pelo desejo do controle?
Como querer controle e liberdade, ao mesmo tempo?
MC Fioti no Google Classroom
Esse semestre estou fazendo uma aula na pós-graduação como aluna especial, com um grupo de alunos intercambistas. Há alunos de várias nacionalidades: Turquia, Russia, Botsuana, Namibia, Nigeria, além de mais 2 brasileiros.
Uma das atividades da matéria é uma apresentação cultural sobre seu país, para que os outros alunos conheçam um pouco sobre as diferentes culturas presentes na sala. Como somos três brasileiros, decidi fazer uma apresentação mais pontual, mais específica, sobre algo que ilustrasse uma das coisas que eu mais admiro no Brasil: as pessoas.
Mas eu queria algo que fosse divertido. Economia, normalmente, trata de assuntos muito sisudos. Decidi fazer uma apresentação sobre Bumbum Tan Tan, o hit do MC Fioti, e sua versão sobre vacinação, com clipe gravado no Instituto Butantã.
Eu gosto de pensar que essa é uma das minhas mais caras habilidades: trazer elementos da cultura popular para as discussões acadêmicas. Uma vez durante a graduação, apresentando um seminário sobre a crise financeira de 2008, eu lancei um:
“aí foi que o barraco desaboou, nesse que o barco se perdeeu…”
Poucas pessoas pegaram a referência. Esse é quase sempre o desafio: quando você coloca referências aparentemente deslocadas de um ambiente para outro, você tem que se acostumar com os olhares estranhos, confusos e até mesmo repreensivos. Particularmente, eu acho divertido. Eu gosto da sensação de profanar a seriedade de uma apresentação acadêmica.
[edit] pós apresentação
Muito menos animada que o previsto, a apresentação não recebeu apenas olhares confusos, mas também olhares de profundo desconforto.
Amei, flop 2.
59 abas abertas: Bate forte o tambor, eu quero tic tic tic tic tac

Banda Carrapicho. Fonte LastFm.
Recentemente eu descobri que nem todo mundo tem um diálogo interno contínuo na própria cabeça. Algumas almas abençoadas, quando não estão lendo, conversando ou pensando voluntariamente sobre alguma coisa, têm um silêncio interno que os permite apenas viver. Como vi em um reels essa semana – essas almas não têm 59 abas abertas do Youtube tocando ao mesmo tempo sobre assuntos diferentes o tempo todo, num monólogo constante.
Minha cabeça ansiosa parametriza a realidade de uma maneira ansiosa. Não é um sintoma fruto de uma causa profunda, mas um modo de experimentar a vida.
Há algum tempo, eu e minha psiquiatra decidimos que eu devia experimentar um ansiolítico. Fomos ajustando a dose até que as abas (pelo menos a maioria delas) fecharam. Poderia ter sido ótimo. Mas na verdade, me senti péssima. A dose do ansiolítico que fazia o monólogo interno cessar, era uma dose que me deixava letárgica, com sono, sem conseguir articular ideias e pensamentos como antes eu era capaz. Apesar disso, foi nessa época que eu consegui sentar na garagem da minha casa, e apenas observar a chuva cair.
Depois dessa experiência acredito que, por enquanto, ao invés de tentar fechar as abas da minha cabeça, eu preciso apenas dar pause nos vídeos, e ter a capacidade de tocar um de cada vez. Pra mim isso passa pelo abandono da racionalidade excessiva, e um acolhimento maior de mim mesma e das minha emoções – por mais feias que elas sejam – e uma desidentificação entre quem eu sou e os pensamentos que me surgem.
De qualquer maneira, fora do mundo abstrato das ideias, a realidade concreta bate forte como o tambor tic tic tic tic tac, e esse cérebro ansioso lida de uma maneira pouquíssimo íntima com a realidade. Na verdade, um dos motivos para esse cérebro engajar tanto nos infinitos fluxos de pensamento é escapar de realidade, e é como se, ao se perder na racionalidade, ele pudesse temporariamente se esquivar da concretude externa.
Pra que fazer um doutorado?
Terminei meu mestrado há alguns anos. Comecei logo depois da graduação, em 2017, defendi em 2019.
Na época, me pareceu uma saída ótima para uma fase de completa indecisão profissional e insegurança acadêmica. Eu estava me formando como economista, mas não tinha a ousadia de me proferir enquanto uma. Precisava estudar mais. Tive bolsa, o que me deu um conforto grande de ter alguma renda, apesar de ainda depender parcialmente dos meus pais. Eu tinha vinte e três anos, e já sentia que era hora de ganhar meu próprio dinheiro.
Hoje, com trinta anos, considero ir pro doutorado. Queria estudar algumas questões que me atormentam dentro dos meus temas de trabalho – educação, trabalho e desenvolvimento econômico – e contribuir com algumas ideias novas, fruto da minha experiência prática associada com mirabolantes ideias que brotam no bailão do meu cérebro e alugam um quarto por lá.
Mas agora, já não tenho muita paciência para ter aulas. Tenho um emprego estável e não preciso de bolsa. E depois de não fazer absolutamente quase nada com o meu título de mestre, eu me pergunto: pra que fazer um doutorado?
Sim, me encontro de novo topada com uma parede de tédio e falta de tesão no trabalho (uma parede de natureza muito diferente da que me levou ao mestrado, inclusive). Mas inserida em um contexto muito diferente, hoje também considero opções diferentes. A pura vontade – não particularmente forte – de estudar seria suficiente para fazer um doutorado?
Fui dar um Google e encontrei uma coluna no Nexo Jornal, com exatamente essa questão: “doutorado, para que te quero?”, que me renovou alguns elementos para considerar. Segundo o texto, a própria existência do doutorado foi concebida como uma preparação para a carreira acadêmica, quase uma mímica da relação de aprendizado das guildas na Idade Média, quando, ao final do seu treinamento, o aprendiz exercia uma função semelhante ao seu mestre. É a ideia de um aprendizado individual com supervisão de um orientador, que te prepara para uma vida de pesquisa e ensino.
Na prática, vagas acadêmicas para lecionar em universidades que remuneram decentemente seus professores estão cada vez mais escassas, e o título de doutor não te garante muita coisa nesse meio. Não que fizesse diferença. Não tenho o desejo de lecionar.
Seguindo a minha pesquisa, encontrei um artigo online da ANPG, Associação Nacional de Pós Graduação, explicando o Doutorado. Uma das últimas seções da matéria pergunta “Como saber se o doutorado é pra você?”.
O texto começa com “Não adianta fazer doutorado apenas para ter o título de doutor” – ideia com a qual consigo me identificar profundamente, então sigamos para a lista.
Determinação e Foco, aptidão para a ciência, visa lecionar. Essas eram as três características citadas. Das três, comungo com uma: aptidão para a ciência. Não quero lecionar, e posso até ter determinação, mas o foco foi embora há anos e anos.
A verdade é que existe o desejo do doutorado. Se não existisse, eu não estaria me empenhando em pensar sobre. Mas há tantas possiblidades – muito mais rentáveis – que podem me tirar dessa parede profissional da qual eu bati, que não me sinto confiante de perseguir esse caminho com muita voracidade.
Fora a preguiça da academia e do ambiente acadêmico, que a partir de uma competitividade exaustiva entre seus membros, torna a universidade e os seus eventos muito mais enfadonhos do que precisariam ser.
Sinto também o peso do meu superego me atormentando com o seu etarismo precoce que me diz que não posso esperar muito para fazer isso, ou vai ser tarde demais, vou ficar velha demais, e não vou ter uso nenhum para o meu título – pois serei velha, amarga e inútil. Com as minhas razões, rio dele. Ele é ridículo, e mais gera ansiedade do que governa minhas decisões.
Meu mestrado foi há anos atrás, mas o que me motivou a fazê-lo, ainda é o que me motiva a considerar um doutorado: o desejo de estudar algo de maneira estruturada, aprender mais e conhecer mais. Eu só não sei se hoje em dia esse é um motivo suficiente para sustentar um desejo dessa envergadura.