Com a palavra, Agostinho

A curiosidade foi muito maior do que a minha prudência. Faz um tempo, escuto sobre as pessoas usando IA como apoio terapêutico. Eu mesma, não havia tentado. No máximo já tinha colocado uma conversa ou outra para ser analisada, para ouvir que naquela discussão, eu tinha razão.

Mas essa semana, não resisti. Faço terapia há uns bons anos. Psicanálise, acredito eu. Nunca perguntei, e minha psicóloga é muito misteriosa. Mas entre os silêncios e os temas que se colocam, concluí pela psicanálise.

Há mais ou menos um ano, quase todo final de sessão eu faço alguma anotação – uma reflexão sobre o que ficou em mim. E, no meio de um descanso pós-almoço numa quarta-feira de trabalho, pensei: e se eu jogasse tudo pro Agostinho (como eu chamo a IA) dizer o que ele interpreta disso tudo? Quem sabe assim eu não descubro algo sobre mim mesma, algo que minha psicóloga jamais me diria?

Analise as entradas desse diário como um psicanalista experiente. Não tente me agradar, e trace um perfil psicológico a partir do que você encontrar.

Ele começou tranquilo. Não me disse nada muito novo do que eu já havia percebido, pensado ou sentido nos meus anos de análise. Aos poucos fui fazendo outras perguntas. Pedindo para que um ou outro ponto fosse expandido, analisado mais a fundo.

Quando vi, já estava naquilo fazia uma sólida meia hora. Lendo, absorvendo. Nada era novo, mas várias elaborações eram como um soco. Em certos momentos eu falava que aquelas entradas não eram minhas, mas de minha paciente. Em outros, eu dava mais detalhes sobre minhas características, desejos e comportamentos e pedia para relacionar.

Sem conseguir escapar da sua programação, Agostinho sempre tinha algo para me falar.

Nada do que ele me disse foi exatamente novidade. Mas foi honesto demais, direto demais. Enquanto eu lia todas aquelas partes de mim que eu demorei tanto para elaborar, dispostas na tela do computador de uma vez, na forma de um grande texto selvagem, me senti desamparada.

Entendi a diferença que faz ter alguém humano para segurar a minha mão enquanto me debruço sobre mim. Enquanto lia e tentava absorver tudo, sentia uma inquietação profunda, uma náusea discreta e persistente, uma sensação que tudo aquilo era demais.

Estava exposta, inquieta. Meu corpo ditava então, o limite da minha curiosidade, me jogando num desconcerto físico e mental que aos poucos foi se tornando demais. Insisti. Queria tirar alguma coisa daquela experiência.

Liste, Agostinho, perguntas para guiar reflexões para que eu consiga me tornar mais livre e mais inteira.

Apareceram na tela 45 perguntas organizadas em torno dos vários temas que estruturavam a conversa. Enquanto eu lia, item por item, meu enjoo se aprofundava. O que eu faria com aquilo? Pensei em guardá-las. Desejei guardá-las, pensar sobre elas. Afinal de contas, é o que eu faço de melhor: intelectualizar sentimentos na esperança de que eu não precise senti-los.

Não sustentei. Nem poderia. Meu corpo havia me imposto o limite da minha curiosidade, e dali eu não passaria. Apaguei tudo. A conversa, a memória do Agostinho, as perguntas. Levantei, respirei, apoiei as minhas mãos na parede e chorei. Respirei fundo, me recompus. Terapia só me parece então possível se uma mão humana segura a minha. Só assim serei capaz de me perder.

Para os vazios, certamente ficarei com a humanidade.

Ontem no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector

Até mais,

Ao longo dos meus jovens 31 anos, me mudei de cidade algumas vezes. Apiaí, São Paulo, Campinas, São Paulo, Petrolina, São Paulo, Valinhos. Até hoje, senti que minha cidade favorita era São Paulo.

Cresci em uma cidade muito pequena, e não fui uma adolescente particularmente sociável. Não gostava de reconhecer as pessoas na rua, cumprimentar conhecidos distantes o tempo todo, ter que sempre estar minimamente “apresentável“, naquela sensação horrível de estar sob o olhar alheio constantemente.

Quando me mudei pra São Paulo pela primeira vez foi quando saí da casa dos meus pais. Eu tinha acabado de completar 17 anos, e me sentia pronta para pertencer a outro lugar que não fosse aquele incômodo provincial. 

Aos poucos, São Paulo foi me adaptando como jovem adulta. Eu achava  maravilhoso a imensidão de desconhecidos com pressa, os quais eu poderia olhar sem ver, existir sem ser vista. Eu poderia, então, existir como quisesse. Era como se em São Paulo eu pudesse ser quem eu quisesse ser, ser livre.

Me apaixonei. O relacionamento durou um ano, mas já no ano seguinte, me mudei pra Campinas. Precisava trocar de curso de graduação, larguei a moda pra estudar economia, e troquei a Paulista pela Avenida Dois, em Barão Geraldo.

Foram 6 anos em Barão. Outra vida, outro ritmo, outros propósitos. Sempre que podia, ia pra São Paulo sentir o gosto de liberdade que uma vez provado, era confortável demais para abrir mão. Gostava muito de Barão, é verdade. Mas minhas aspirações eram paulistanas, decididamente.

Quandome mudei com o meu então namorado, fomos morar num apartamento de trinta metros quadrados, numa pequena vila em Perdizes. Voltei à São Paulo. Morar ao lado de um estádio grande foi… Uma experiência. Fomos muito felizes ali. Ao mesmo tempo, sobreviver com uma bolsa de mestrado foi… Interessante. Experimentei um tipo de liberdade outra que não a universitária. Experimentei, ao mesmo tempo, o que significava morar junto.

Final do mestrado, precisava entender o que eu queria fazer. Fui pra Petrolina. Tive a sorte de dividir casa com duas paulistanas maravilhosas, que fizeram total diferença para essa sudestina que se sentia um extraterrestre ambulante. Nosso apartamento divido era a nossa casa, longe de casa.

Pandemia, voltamos pra São Paulo. Mas já era outra, eu e ela. Tempos pandêmicos. Trocamos o apartamento de 30 metros por uma mansão de 52, ao lado do metrô. Agora, nossa porta do banheiro era uma porta de verdade, não uma porta sanfonada de plástico.

Eu gostava. Apesar dos perrengues de dividir uma sala em dois escritórios, morar em São Paulo me dava um conforto de existência que para mim era suficiente.

Pandemia. Decidimos nos mudar para o interior, “pelo menos por um ano, até que a pandemia passe”. Dessa vez, fomos de fato para uma mansão – ou pelo menos parecia. Saímos de um quarto pra cinco suítes. Para duas pessoas e um cachorro. Não tínhamos nem móveis o suficiente para encher a casa. Alguns quartos ficaram quase que completamente vazios. Chegamos a comprar tapetes para diminuir o eco da casa.

Eu, firme no meu propósito de voltar para São Paulo. “Quero voltar, quero voltar. É só por um tempo”, eu repetia para todos que me perguntavam. A pandemia seguiu forte por pelo menos mais um ano.

Nesse meio tempo, fui tia duas vezes e engravidei. Zazá chegou e eu nunca fui mais a mesma. Nem poderia. Agora não éramos três. Somos quatro. Criança pequena, primos por perto, avós por perto, tios por perto.

E a vida foi tratando de me encaminhar por outros lugares. Agora não trabalho mais em São Paulo, trabalho em Campinas. Não bebo mais uma cerveja na Augusta, ando de sling no shopping. Não tenho mais o prazer de não reconhecer ninguém na rua, tenho o prazer de acordar e dormir sem barulho.

Compramos uma casa. Sedimentamos. Não queremos criar nosso filho sozinhos. Precisamos da paz do interior. Mas no meu próprio interior, seguia paulistana. Seguia desejosa daquela liberdade individual radical que, aos poucos, não fazia mais parte de mim. Não tinha como fazer. Somos quatro agora.

Penso em Alexandre Pires. “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade, se estou na solidão pensando em você…

Certamente não estamos falando das mesmas coisa. Ainda assim, me faz pensar que a lógica da perda da liberdade é interna. Não sou mais livre pois nãoo quero ser. Quero ser presença, quero ser espaço, quero ter espaço. Eu, que nunca consegui pertencer, de verdade, em lugar nenhum, encontrava em São Paulo lugar para esse não pertencimento.

São Paulo era, pra mim, o lugar que eu não precisava pertencer, e ainda assim existir. Existir não existindo, já que se eu morresse na contramão apenas atrapalharia o tráfego.

Me cabia. São Paulo me cabia no meu não-lugar. 

Mas eu, que nunca tive lugar, agora sou lugar de alguém. E isso me desespera. E me conforta. E é onde eu escolho estar.

Hoje vim para São Paulo. De repente, não me encontrei. Não senti conforto. Senti incômodo. Muita gente, muito barulho, muito incômodo. Eu, que sempre coube, não cabi mais. E esse descabimento me desconcertou. Não sabia o que fazer. Entrei numa farmácia, tentando encontrar alguma coisa pra me ancorar. Não consegui. Entrei numa livraria. Nada. Sentei pra comer numa padaria. Piorou. Cheguei ao ponto de não saber nem o que pedir para comer.

Desconcertada, escrevo. Escrevo também para perceber que se eu não tenho em São Paulo a cidade que me acolhe e me cabe, é porque talvez eu agora pertença à outro lugar.

Até mais, noites paulistanas.

(…) escrevo conforme meu humor

Minha cabeça gira. Não gira, mas corre entre pensamentos e sentimentos que me distraem profundamente. Estou sentada numa aula de Direito Processual Civil, mas sigo sem a menor capacidade de prestar atenção. Não hoje. Não agora.

Terminei de ler o livro “Eu só existo no olhar do outro?” do Christian Dunker e da Ana Suy. Acho que entendi apenas um terço do texto – boa parte das referências no diálogo ente os dois psicanalistas me escapou. De qualquer maneira, terminei de ler. E senti atravessamento de várias partes. E isso me desorganizou um tanto. Um tempo. De uma maneira que me deixa em estado de suspensão. Especialmente hoje, que decidi não voltar pra casa para jantar,  tive um tempo livre entre o trabalho e a faculdade. Nesse intervalo, me perdi.

Ultimamente tenho refletido sobre a escrita. Tenho a sensação que conseguirei me realizar através da escrita, descobrindo partes do próprio discurso sobre mim mesma que me escapam no simples exercício de reflexão pensada. Porque a escrita é expressão e explicação do discurso interno. Mesmo que controlada. Diferentemente da fala, que segue solta sem poder de edição.

Para falar, é preciso um outro. Ainda que esse outro seja eu mesma, a fala também esbarra no processo físico de expressão. É preciso me esforçar para falar. Elaborar meus sentimentos pela fala nunca foi fácil.

A escrita é diferente. Já escrevo há alguns anos, o suficiente para diminuir minhas reservas sobre meu discurso e me dar uma certa prerrogativa de escrever sem me amarrar tanto, nem à forma, nem ao conteúdo. Mas a escrita ainda permite ponderação. Ainda permite apagar, refazer, reformular, reavaliar. Escrever é se expressar meio solta, meio reformulada.

Apesar de não ter muito interesse em reformular a minha escrita. Também porque são nas entrelinhas tortas que minha humanidade se exprime – e me diferencia de uma inteligência artificial generativa que poderia reescrever esse mesmo texto de uma maneira mais objetiva, mais prolixa, em forma de prosa ou de poesia, como uma música de rap ou um hit de piseiro. Mas também porque o objetivo da minha escrita é conhecer aqueles processos que são opacos à minha autopercepção.

É como se eu pudesse me conhecer quando escrevo. E só quando escrevo, pois são raras as vezes que suporto me ler. Mas quando escrevo, percebo como formulo em palavras o que penso. Pois tenho a ideia que penso com palavras, mas não. Percebo que penso com ideias que se relacionam, que nem sempre tomam a forma de palavras.

Tomar a forma das palavras exige um tempo e um espaço que força os pensamentos desacelerarem. Força tomar o tempo das palavras, da escrita. E, por mais rápido que eu possa escrever, esse tempo ainda é significativamente maior do que o pensamento. Mas é por tomar esse tempo, esse esforço de materialização, é que a escrita tem sentido: ela desacelera, mas também sedimenta. Ela traz para o concreto algo que se ficasse na forma amorfa dos pensamentos, me escaparia por completo. 

A fala nem sempre fica. A fala também escapa. Ela exige um esforço diferente e entrega algo diferente (ou tira algo diferente). Ela transforma apenas por existir no momento que é falada. Às vezes, essa transformação é suficiente para gerar algum efeito adicional. Mas, geralmente, o resultado da fala vem do próprio esforço de produzi-la.

A escrita fica. Como Joan Didion falou certa vez uma entrevista, num contexto de escrita de diário, não escrevo como fonte de consulta histórica, mas “conforme meu humor”. Assim, minha produção escrita está longe de representar a realidade fática. Mas também não tenho interesse na realidade fática. Me interesso pela percepção o que sinto o que acontece. O que acontece fora, mas principalmente o que acontece dentro de mim. E o que acontece dentro sempre toma caminhos intensos e dramáticos, que muitas vezes não têm razão de ser. Mas essa é a parte interessante dos sentimentos: eles existem, sem precisar razão de existir. Eles existem, e pronto. E a escrita os cristaliza – seja para processá-los, seja para expurgá-los, seja para dar certa transparência para o que seria apenas um objeto opaco, guardado aos cuidados do inconsciente.

Planejar e continuar planejando

Eu amo planejar. Eu amo tudo o que envolve o planejamento. Pensar nos objetivos, nas necessidades, nas etapas. Abrir o calendário, ver datas, possibilidades, o que vai ser exequível e o que vai ter que ser deixado pra trás, como um sonho de uma noite de verão.

Gosto de personalizar o processo. Gosto de entender que cada objetivo, objeto ou projeto tem sua própria dinâmica, e que precisa, talvez, de um método diferente de planejamento.

Gosto de formalizar tudo isso num documento visualmente agradável, funcional. Que não demande tempo demais para ser atualizado, mas que ainda marque o progresso feito.

Não importa o meio: digital ou analógico, notion, google calendar, miro, uma apresentação em ppt, uma tabela de excel, um caderno ou uma cartolina. Tudo depende do que faz mais sentido.

Eu realmente amo todos os aspectos do planejamento. Curiosamente, a minha tragédia é a execução.

Ter que dar os primeiros passos, cumprir as tarefas cuidadosamente pensadas para serem executadas num prazo determinado (com óbvio espaço para acomodar imprevistos e atrasos), prazo atrás de prazo. A execução é uma tragédia.

O que me interessa no planejamento – além da minha predileção por papelaria, cadernos e canetas – é a ideação. No planejamento, tudo é da ordem das ideias, e eu consigo fazer o que mais gosto: pensar.

No planejamento tudo é possível, e minhas ideias encontram o máximo de concretude que elas aceitam. Uma ideia abstrata (como a entrega de um projeto de pesquisa, por exemplo) vai se tornando palpável, com a fragmentação de tarefas, etapas e prazos. O que fazer, quando fazer, para que aquele projeto seja entregue no prazo combinado. Algo completamente ideal, ganha numa abstração de grau menor, alguma concretude. A concretude do papel, da escrita, da definição.

Aquela ideia amorfa ganha contorno, ganha corpo. Mas veja, ainda é um corpo etéreo, um corpo não-corpo, porque ainda permanece no campo das ideias. É uma auto-realização, sem o comprometimento com um status final de concretude que a execução exige.

Planejar é bom, é bonito: fica nas ideias sem a feiúra da concretude áspera da execução, onde o que é executado não se iguala ao que foi planejado.

Executar também é fracassar. É aceitar que as suas capacidades são limitadas, e que nem tudo é possível. O que foi possível não é nem tão grandioso, nem tão gostoso como o que foi planejado.

Mas engrandecer o planejamento e denunciar a feiúra da execução posa um problema fundamental: as coisas acontecem, são sentidas, cheiradas, pegadas, invertidas, destruídas e reconstruídas na execução. As coisas – e a vida, consequentemente – só existem durante e após a execução. As ideias não existem concretamente. As ideias produzem efeitos, as ideias condicionam a execução, as ideias satisfazem um desejo de controle e imaginação. Mas as ideias ainda são só o que podem ser: ideações da realidade.

E ao fim e ao cabo, as ideias precisam da concretude da execução para se criarem em novas realidades, novas possibilidades e novas ideias. A execução também se faz necessária para as ideias.

Talvez o planejamento seja essa tentativa de ponte entre as ideias e a execução. Talvez o planejamento seja uma ideia de execução que eu consigo sustentar sem sofrer, sem me comprometer. Sem encarar os meus limites de executar – sem feiúra, sem concretude.

A feiúra da concretude vem dos limites do executor. Dos meus limites de execução. As ideias também têm seus limites. Mas os da execução são muito maiores. Meu desencontro com a execução, então, é um desencontro com os meus limites. Reconhecer as falhas da execução significa reconhecer até onde eu consigo ir. Até onde eu dou conta de ir. E minhas ideias sempre chegaram mais longe do que minhas execuções.

Se haver com os próprios limites é difícil, pois é necessário se haver com a sua humanidade. Pra mim, significa pôr à prova minhas capacidades, mostrar quem eu sou e como eu sou. Significa dizer: eu venho até aqui, é isso que eu consigo fazer.

E em seguida, olhar para o que fiz e questionar: está bom o suficiente? O que eu dei conta de fazer, foi suficiente? Foi mais que suficiente, foi bom? Eu sou suficiente? Eu sou boa?

Se haver com a pópria humanidade significa também reconhecer que essas são perguntas inócuas, sem sentido real – uma vez que a própria humanidade é inerentemente suficiente. Porque quando se fala de humanidade, não se fala de suficiência, se fala de possibilidade. E todas as possibilidades são suficientes, todas as possibilidades são existíveis.

A dicotomia entre planejar e executar desemboca, então, no ser, no existir e no desejar. Planejar é desejar, executar é obter: obter a concretude da própria humanidade.

contornos e limites

Já falei algumas vezes na terapia sobre os contornos da subjetividade do indivíduo. De maneira específica, sobre os contornos da minha própria subjetividade. Como eu defino, descrevo, enxergo, delimito a minha subjetividade?

Desde o início do ano eu fui investigar de maneira objetiva se eu tinha uma neurodivergência. Se, essencialmente, meu cérebro processava a realidade de uma maneira não neurotípica. Depois de alguns testes que se assemelhavam a um ratinho procurando comida um labirinto, eu recebi um laudo que dizia exatamente o que eu suspeitava ser: neurodivergente.

Foi um relatório de mais ou menos 20 páginas, e é claro que ele me dizia mais do que isso. Era um laudo que mapeava todo o meu funcionamento cognitivo. Ali eu vi refletidos alguns anos de descobertas construídas na terapia. Foi um sentimento muito curioso, com quase nenhuma ação prática: eu dei um nome para algumas coisas, mas as coisas continuam ali como sempre estiveram, e eu tenho que lidar com elas da mesma maneira que sempre lidei.

Mas na verdade essa é uma grande falácia, não é? Não há a menor possibilidade de ser a mesma coisa. E não há a menor possibilidade de eu lidar com as coisas da mesma maneira. Primeiro, porque as coisas mudam o tempo todo. O tempo todo. Segundo, porque, como eu bem aprendi nesses anos de terapia, a forma como você elabora as coisas com a sua linguagem altera a sua percepção sobre essa coisa.

Me reconhecer como neurodivergente, com o passar do tempo, foi como um abraço: eu não era estranha, chata, inconveniente. Eu só sou diferente. E reconhecer essa diferença me trouxe mais pertencimento do que apartamento.

Entender a minha neurodivergência me permite dar mais voz e importância para os meus sentimentos, sensações, vontades e pensamentos. Me dá uma leve ideia de como é não questionar a minha adequação o tempo todo.

Entender a minha neurodivergência me permite reconhecer novos contornos. Me permite dar mais voz a mim mesma. Parte de mim se sente desolada por ter que ter tido um laudo pra isso – para que eu me permitisse ter alguma voz. Mas ao mesmo tempo penso que sou apenas uma mulher latinoamericana, ou como eu repito pra mim mesma o tempo todo: hei de reconhecer que sou apenas uma mulher do meu tempo, com todas as suas capacidades e limitações.

Mas dar mais voz a mim mesma não significa dar voz a mim mesma sempre. Longe disso. Eu inclusive me surpreendo sempre quando consigo reconhecer as pequenas-grandes coisas que me atravessam.

Essas descobertas foram o que me trouxeram para esse texto. Venho me descobrindo uma pessoa com várias rigidezes que eu acomodo diariamente, sem validá-las, dando outros nomes que deixem o desconforto mais socialmente palatável: “ah, é que eu sou fresca com comida mesmo” (quando na verdade o cheiro do lugar que ficou impregnado na minha roupa me perturbou a tarde inteira, provocando um sentimento de agonia que só iria passar depois de um banho); “eu sou teimosa” (quando na verdade eu não via nenhum motivo para concordar com você, já que seu argumento era fraco e não se sustentava, ou você não soube me explicar porque ele era mais sólido que o meu);  “Ih, não é nada… Todo mundo erra, agora é bola pra frente” (quando eu não conseguia aceitar uma conduta moral ou eticamente duvidosa que eu fiz, e estava completamente focada e não conseguia abstrair do valor pretensamente ofendido, mas a pessoa não entendia ou não queria mais falar sobre aquilo).

Mas, contornar o desconforto para não incomodar o meu entorno, não anula o desconforto interno – como sempre achei que fosse possível, como se aquele desconforto fosse minimizado, ele desapareceria de dentro de mim.

Ledo engano. O desconforto não sentido, não anunciado, não denunciado, não autorizado, faz o que consegue fazer: desorganiza. Se ele não cabe aqui, onde cabe? O que é aqui, então? O que cabe aqui?

No acúmulo de desconfortos, no acúmulo de desautorizações de existência, os contornos se desfazem. E a desorganização se instala de um jeito que desconforta completamente.

Aprendi que uma das características minhas que posso atribuir à minha neurodivergência é a intensidade emocional (que eu sempre dei conta de modular externamente para não causar aborrecimentos desnecessários a terceiros; *coloca a máscara de palhaça*).

A intensidade emocional faz com que essa desorganização seja praticamente onipresente e, de repente, todas as suas escolhas são questionadas, e suas ações ficam suspensas. Você entra num estado de sobrevivência funcional onde todas as suas energias são alocadas para você funcionar minimamente, e performar as atividades estritamente necessárias: comer, trabalhar, cuidar dos filhos e cachorros.

Mas a vida objetiva que segue esconde uma vida subjetiva que fervilha, que consome. Uma subjetividade em efervescência que soa muito melhor do que faz sentir. E no desespero por contornos, várias artimanhas podem ser empregadas: comida, sexo, sono, carência, compras. Qualquer coisa que dê limites para esse ser que transborda.

No fim, essa desorganização se transforma em reorganização – nem sempre melhor do que a anterior, nem sempre mais organizada ou esclarecida. Mas o estado de desorganização é tão incômodo, que qualquer que seja a organização posterior, ela será menos sofrível que a suspensão.

A organização, desorganização e reorganização sempre acontecem. É quase que um processo cíclico que se repete enquanto formos capazes de perceber a nossa existência. Mas nunca ocorre da mesma maneira, e sempre resulta em algo diferente. Talvez melhor do que um círculo, a imagem seja a de uma espiral, que altera o seu raio de acordo com as possibilidades – de sentir, de perceber, de elaborar.

Confiar no próprio cérebro

O último post foi em janeiro. Sim, eu sei. Não, não vou me explicar sobre isso.

Inclusive, eu estava pensando esses dias sobre confiar no próprio cérebro. Eu entrei numa fase de Alanis Morissette faz algumas boas semanas. Completamente obcecada por duas músicas em específico: You oughta know e Ironic. Eu certamente fiquei obcecada por aprender a letra pra conseguir cantar junto (agora estou levemente assim com La solitudine, da Laura Pausini. Alô Terra Nostra!).

Mas tem uma parte da música, especialmente da You oughta know, que eu – por mais que soubesse racionalmente a letra – não cosneguia encaixar as palavras no ritmo:

(…) and the love that you gave that we made wasn’t able to make it enough for you to be open wide, noooo / and every time you speak her name does she know how you told me you would hold me until you died? ‘Til you died, but you’re still alive (…)

Era absolutamente impossível. Depois de um tempo, eu acertava uma vez ou outra. Mas na maioria das vezes era simplesmente impossível.

Eventualmente, eu fui superando. Abrindo mão, começando a me fixar em outras coisas. Até que esses dias eu estava cantando ela despretensiosamente, e saiu. E de novo. E de novo. Minha boca só acompanhou meu cérebro. E eu cantei. No ritmo.

Eu achei – por falta de palavra melhor, apesar da repetição textual – absolutamente incrivel. Meu cérebro resolveu meu problema. De maneira autônoma.

Será possível, meu cérebro resolver problemas de maneira não consciente? Será que o que eu preciso é confiar mais no meu cérebro? Confiar que ele vai dar conta de pensar e resolver coisas, ainda que eu não fique completamente obcecada, pensando nelas de maneira consciente o tempo todo?

Será essa uma maneira de ele me dizer que eu preciso abrir mão de tentar achar uma saída racionalmente forçada pra tudo? Será que eu preciso pensar o tempo todo? Será que meu cérebro é capaz de cuidar de mim?

Claro que há um certo nível de despersonalização nesse raciocínio – já que eu tento separar meu cérebro de mim mesma, e tento entender que ele e eu somos dois entes diferentes que habitam o mesmo corpo – que inclusive aparece agora como uma terceira entidade.

E que essa despersonalização é falsa, ou no mínimo, fantasiosa, já que eu sou todas essas coisas juntas: a minha identidade, personalidade, consciência; meu cérebro e meu corpo.

Mas para fins didáticos, para mim mesma, eu vou permitir essa dissociação e viver com ela. E tentar não obcecar sobre ela a partir do meu fluxo de consciência. É possível? You oughta know.

Repertório, futuro e utopia

Sentada numa padaria , esperando meu café, sento e escuto um grupo de mulheres mais velhas comentarem sobre a faculdade de arquitetura de uma das filhas. A filha em questão fora fazer um trabalho de faculdade em Barcelona, sobre a ocupação de skatistas uma determinada praça. Não ficou claro pra mim onde a filha faz faculdade, mas tenho um bom papite que o curso é de arquitetura e urbanismo.

Não consigo desligar da conversa. Assim como não consigo desligar de duas crianças conversando com a mãe e correndo ao meu lado. A mãe os elogia, falando como eles são lindos e adoráveis. Não discordo. Não por achar isso particularmente dessas duas crianças, mas porque sei que me sinto assim com o meu próprio filho e seu jeito de viver e se expressar.

Um dos cenários me faz sentir completamente distante. O outro me traz referências íntimas. Não é sempre assim que lemos o mundo? A partir da nossa própria ótica, repertório, visão de mundo?

Entendo profundamente que cada indivíduo vai carregar consigo as suas histórias, carregadas de valores e julgamentos, formados em algum momento de sua vida. Mas também entendo que o todo não é uma soma das partes, e dividimos, em algum grau, uma moral e ética coletivas. Seja de maneira formal, como as leis escritas, seja a partir de um acordo tácito, como a convenção social de cumprimentar as pessoas que conhecemos quando as avistamos. Há também as experiências biológicas que nos unem: a experiência da gravidez, do parto de uma criança – por mais que seja completamente mediada por aspectos particulares, há uma importante experiência compartilhada.

Dentro dessa ideia de experiência compartilhada, alguns aspectos que eu via e vejo em outras pessoas, não consigo ver em mim. Um em específico é a fantasia de uma capacidade de “apenas aproveitar a vida”.

Sabe aquele setimento tão bem descrito pelo Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar, leva eu”? Eu nunca soube. Não consigo entender o conceito de não ter um sentido pra vida.

Não falo em termos de controle. Eu não preciso saber o que vai acontecer, e quando e como. Inclusive, uma das perguntas que eu mais tenho dificuldade de responder é a clássica dos coaches: “onde você se vê daqui a cinco anos?”. Amado, eu não sei o que vai acontecer amanhã, não sei como os acontecimentos do próximo ano vão me mudar (ou não). Como dizia Keynes, um famoso economista, não há elementos matemáticos suficientes para fazermos previsões adequadas sobre o futuro. Não, essa não é a frase ipsis litteris, mas passa a ideia geral.

Tudo bem que Keynes estava falando sobre o modo de produção capitalista, em especial dos mercados financeiros. Eu, longe disso. Mas estamo mesmo na era de nos entendermos como empresas de nós mesmos, não?

Voltemos ao meu ponto principal: o de não ter funcionamentos que parecem básicos. Sobre os cinco anos: racionalmente eu entendo perfeitamente que se trata de um desejo, e não uma previsão escrita em pedra. E que essa visão vai mudando ao longo do tempo. Mas é exatamente por essa razão é que eu me sinto fisicamente incapaz de descrever o que eu genuinamente gostaria de fazer ou onde eu gostaria de estar daqui a cinco anos.

Hoje em dia eu tenho um filho de quase 3 anos. Há cinco anos atrás, essa realidade parecia completamente impossivel. E era. Mas após uma pandemia, infinitas mudanças, ter um filho fez sentido. E é uma alegria.

Tenho um sentimento que tudo muda tanto, o tempo todo. Mas ao mesmo tempo, dentro das minhas contradições, sei que existe permanência, mesmo na mudança. Sei que daqui a cinco anos eu continuarei sendo mãe do meu filho. Mesmo que eu não seja a mesma mãe, e nem ele o mesmo filho.

Sei também que a minha incapacidade de projetar futuro cai em contradição com a minha incapacidade de lidar com o “deixa a vida me levar“. Eu quero projetar ou descobrir o futuro?

Acho que nenhum dos dois. Eu quero uma utopia para caminhar. Uma direção que converse comigo me faça descobrir um futuro que esteja alinhado com quem eu sou e com a minha própria noção de ética, moral, com um bom balanço entre individualidade e coletividade.

Qual é a utopia que movimenta o seu viver?

A ideia de ler é mais interessante que a leitura.

Eu tenho um sério problema com os livros. Trabalho com pesquisa, então a leitura é tarefa diária. Seja pontual, como artigos, relatórios ou notícias ou alguma leitura de mais fôlego, como um livro de temática relevante.

Dito isso, eu achava que detestava ler. E detestava mesmo. Não li todos os livros do vestibular. Talvez um ou dois, no máximo. Grande sertão veredas? Iracema? Passei longe. Quando cheguei na faculdade, li muito. Diversos clássicos da economia, já que meus professores preferiam que lêssemos autores no original. Não peguei gosto.

A leitura pra mim, então, sempre foi parte do processo de aprendizagem e fonte de informações. Não lia pelo ato da leitura, lia pela informação.

A questão é que, tendo essa opinião sobre a leitura, não consigo me haver com os livros. Olho para as opções, vejo vários livros cujo tema me interessa: economia, filosofia, ciências sociais. História não é muito pra mim. Um ou outro raro de alguma psicanalista. O meu problema não é ter interesse – é conseguir ler sem dormir.

A leitura começa, até é interessante. Mas logo fico cansada. Desinteressada. Desisto. Durmo com o livro na mão.

A ideia de ler é mais interessante do que a realidade da leitura.

Claro, já li muita coisa interessante. Claro, já tentei ler romances. Me disseram, certa vez, que são mais palatáveis. De fato, são. Meu último foi Em agosto nos vemos, do Gabriel García Marquez. Li no aplicativo do Kindle, pelo celular. É um ótimo antídoto para o uso constante de redes sociais. Gosto dos romances que me fazem pensar sobre a experiência da existência humana.

Mas sou péssima para escolhê-los. Quando vou à livraria, além de ter a habilidade de achar apenas livros que custem 80 reais (ou mais, inexplicavelmente), me atraio apenas por aqueles cuja temática parece fabulosa. Mas que não cativam o esforço da leitura. E me fazem dormir. O último desses foi um muito interessante, chamado Humanamente Possível, da Sarah Bakewell, que traça toda a história e personagens do pensamento humanista. O início foi empolgante. A leitura era boa, fluía. Tinha comprado o livro físico, que por mais gostoso que seja segurar em mãos e virar páginas físicas, com a possibilidade de fazer anotações nas margens, é um inconveniente. Precisaria levar ele para todo o canto, e ele é relativamente volumoso para caber na minha bolsa. Li algo como 50 páginas e nunca mais. Está lá, ao lado da minha cabeceira de cama. Esperando minha boa vontade de pegar e ler.

Confesso que quanto menos o livro me faz pensar, menos ele me interessa. Em romances, quanto menos me identifico com a protagonista ou alguma personagem importante, menor é meu interesse também. Acho que isso é parte narcísico e parte desejo de compreensão. Só realmente consigo compreender se me identifico. Não é assim com tudo? Medimos o mundo com a única régua possível; a nossa própria régua.

Estou ficando mais velha, ano passado virei os meus 30 anos. Aos 20 eu não lia e gostava de falar que não gostava de ler: era desconcertante para as pessoas, que geralmente me olhavam como alguém inteligente, não conseguirem entender como era possível eu falar um absurdo daqueles. Eu me divertia.

Agora aos 30, começo a me interessar mais pela leitura. Mas ainda não me desvinculei de uma visão utilitarista. Leio porque gosto de aprender e compreender o mundo, do meu próprio jeito. Leio porque lendo me encho de novas coisas para pensar e considerar. Leio porque preciso que meu entretenimento aconteça em lugares outros que a tela da TV ou do celular. Ainda que a minha leitura aconteça na tela de um kindle ou de um aplicativo.

Sinceramente, não tenho um bom parágrafo de conclusão. Sigo com as inquietações, tentando me entender com as palavras – lidas, escritas e faladas.

É na ausência que existe a esperança

Dia 16 de dezembro, entramos na última quinzena de 2024. Aacabo de voltar da reunião de pais da escola do meu filho, e começo a pensar em tudo o que vivemos nesse ano. Já podemos fazer a retrospectiva de 2024? Não me sinto preparada. Ainda há o que viver em quinze dias.

Penso no que eu desejei, ao final de 2023, enquanto os fogos de artifício brilhavam gloriosos sobre a minha cabeça. Eram desejos tímidos, o ano tinha sido cascudo. Desejei que meu filho se adaptasse à escola. Desejei que 2024 fosse um ano menos selvagem.

O primeiro desejo se realizou, e Zazá passou o ano sem grandes intercorrências. O segundo desejo, mais ou menos. Será que faltou especificidade? Talvez, nos meus desejos de 2025, eu precise ser mais específica. Não porque acredite que assim meu desejo será mais ou menos atendido pelos astros, por Deus ou pelo acaso. Mas porque assim será mais fácil de saber. Uma variável binária (foi atendido ou não foi atendido, 1 ou 0) é sempre mais fácil de interpretar do que uma variável qualitativa.

Mas também rechaço a ideia de desejos binários, vida binaria. Sou feliz ou sou triste? É melhor ser alegre que ser triste, é verdade, Vinícius. Mas a alegria não pode ser feita de binarismos. Se tenho, sou alegre. Se não tenho, sou triste. Existe uma beleza no não possuir. No não ter seus desejos realizados. É na ausência que existe a esperança.

Se não houvesse falta, não haveria desejo, não haveria pulsão, a vida não seria possível. Mas faltar dói. Dói tanto que é preciso esperançar a presença. Mas quando chega a presença, quem faz falta é a falta. 

Falta em excesso também desesperança. Falta em excesso impede a gente de sonhar, de desejar. Se falta tudo, como saber o que se quer? A falta e a presença devem dançar, assim, livrementes. Cada uma com a sua cena. Com as suas possibilidades e seus efeitos sobre as nossas vidas.

Precisa faltar, sempre falta. Só assim podemos desejar e viver. Mas precisa presençar também. Só assim teremos condições e repertório para ver o que nos falta. A falta impulsiona. A presença estrutura.

Já faz alguns anos que não faço lista de metas para o ano que começa. A vida corre e eu só consigo desejar. E aprendi também a não desejar muito, pra dar espaço para a vida surpreender. Desejo o suficiente para esperançar.

Tenho sim, desejos para 2025 que eu espero, com esperança, que se realizem. Mas também espero que as faltas me façam levantar pela manhã e esperançar dias melhores.