Até mais,

Ao longo dos meus jovens 31 anos, me mudei de cidade algumas vezes. Apiaí, São Paulo, Campinas, São Paulo, Petrolina, São Paulo, Valinhos. Até hoje, senti que minha cidade favorita era São Paulo.

Cresci em uma cidade muito pequena, e não fui uma adolescente particularmente sociável. Não gostava de reconhecer as pessoas na rua, cumprimentar conhecidos distantes o tempo todo, ter que sempre estar minimamente “apresentável“, naquela sensação horrível de estar sob o olhar alheio constantemente.

Quando me mudei pra São Paulo pela primeira vez foi quando saí da casa dos meus pais. Eu tinha acabado de completar 17 anos, e me sentia pronta para pertencer a outro lugar que não fosse aquele incômodo provincial. 

Aos poucos, São Paulo foi me adaptando como jovem adulta. Eu achava  maravilhoso a imensidão de desconhecidos com pressa, os quais eu poderia olhar sem ver, existir sem ser vista. Eu poderia, então, existir como quisesse. Era como se em São Paulo eu pudesse ser quem eu quisesse ser, ser livre.

Me apaixonei. O relacionamento durou um ano, mas já no ano seguinte, me mudei pra Campinas. Precisava trocar de curso de graduação, larguei a moda pra estudar economia, e troquei a Paulista pela Avenida Dois, em Barão Geraldo.

Foram 6 anos em Barão. Outra vida, outro ritmo, outros propósitos. Sempre que podia, ia pra São Paulo sentir o gosto de liberdade que uma vez provado, era confortável demais para abrir mão. Gostava muito de Barão, é verdade. Mas minhas aspirações eram paulistanas, decididamente.

Quandome mudei com o meu então namorado, fomos morar num apartamento de trinta metros quadrados, numa pequena vila em Perdizes. Voltei à São Paulo. Morar ao lado de um estádio grande foi… Uma experiência. Fomos muito felizes ali. Ao mesmo tempo, sobreviver com uma bolsa de mestrado foi… Interessante. Experimentei um tipo de liberdade outra que não a universitária. Experimentei, ao mesmo tempo, o que significava morar junto.

Final do mestrado, precisava entender o que eu queria fazer. Fui pra Petrolina. Tive a sorte de dividir casa com duas paulistanas maravilhosas, que fizeram total diferença para essa sudestina que se sentia um extraterrestre ambulante. Nosso apartamento divido era a nossa casa, longe de casa.

Pandemia, voltamos pra São Paulo. Mas já era outra, eu e ela. Tempos pandêmicos. Trocamos o apartamento de 30 metros por uma mansão de 52, ao lado do metrô. Agora, nossa porta do banheiro era uma porta de verdade, não uma porta sanfonada de plástico.

Eu gostava. Apesar dos perrengues de dividir uma sala em dois escritórios, morar em São Paulo me dava um conforto de existência que para mim era suficiente.

Pandemia. Decidimos nos mudar para o interior, “pelo menos por um ano, até que a pandemia passe”. Dessa vez, fomos de fato para uma mansão – ou pelo menos parecia. Saímos de um quarto pra cinco suítes. Para duas pessoas e um cachorro. Não tínhamos nem móveis o suficiente para encher a casa. Alguns quartos ficaram quase que completamente vazios. Chegamos a comprar tapetes para diminuir o eco da casa.

Eu, firme no meu propósito de voltar para São Paulo. “Quero voltar, quero voltar. É só por um tempo”, eu repetia para todos que me perguntavam. A pandemia seguiu forte por pelo menos mais um ano.

Nesse meio tempo, fui tia duas vezes e engravidei. Zazá chegou e eu nunca fui mais a mesma. Nem poderia. Agora não éramos três. Somos quatro. Criança pequena, primos por perto, avós por perto, tios por perto.

E a vida foi tratando de me encaminhar por outros lugares. Agora não trabalho mais em São Paulo, trabalho em Campinas. Não bebo mais uma cerveja na Augusta, ando de sling no shopping. Não tenho mais o prazer de não reconhecer ninguém na rua, tenho o prazer de acordar e dormir sem barulho.

Compramos uma casa. Sedimentamos. Não queremos criar nosso filho sozinhos. Precisamos da paz do interior. Mas no meu próprio interior, seguia paulistana. Seguia desejosa daquela liberdade individual radical que, aos poucos, não fazia mais parte de mim. Não tinha como fazer. Somos quatro agora.

Penso em Alexandre Pires. “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade, se estou na solidão pensando em você…

Certamente não estamos falando das mesmas coisa. Ainda assim, me faz pensar que a lógica da perda da liberdade é interna. Não sou mais livre pois nãoo quero ser. Quero ser presença, quero ser espaço, quero ter espaço. Eu, que nunca consegui pertencer, de verdade, em lugar nenhum, encontrava em São Paulo lugar para esse não pertencimento.

São Paulo era, pra mim, o lugar que eu não precisava pertencer, e ainda assim existir. Existir não existindo, já que se eu morresse na contramão apenas atrapalharia o tráfego.

Me cabia. São Paulo me cabia no meu não-lugar. 

Mas eu, que nunca tive lugar, agora sou lugar de alguém. E isso me desespera. E me conforta. E é onde eu escolho estar.

Hoje vim para São Paulo. De repente, não me encontrei. Não senti conforto. Senti incômodo. Muita gente, muito barulho, muito incômodo. Eu, que sempre coube, não cabi mais. E esse descabimento me desconcertou. Não sabia o que fazer. Entrei numa farmácia, tentando encontrar alguma coisa pra me ancorar. Não consegui. Entrei numa livraria. Nada. Sentei pra comer numa padaria. Piorou. Cheguei ao ponto de não saber nem o que pedir para comer.

Desconcertada, escrevo. Escrevo também para perceber que se eu não tenho em São Paulo a cidade que me acolhe e me cabe, é porque talvez eu agora pertença à outro lugar.

Até mais, noites paulistanas.

chegar num ano novo é como chegar no futuro.

Pode parecer piegas, mas a data comemorativa que eu acho mais mágica é o ano novo. É uma mistura de encantamento com os fogos de artifício, o gosto suave do espumante (que aprendi a beber e comprar depois de várias visitas à vinícola da Rio Sol em Petrolina, PE), pavê de pêssegoscom creme e uma promessa de “tudo novo de novo”, que eu só sinto nessa época do ano.

Sim, os problemas são os mesmos. As dívidas as mesmas e as pessoas também. Mudou o calendário, mas nossos valores e ações não. Ou, pelo menos ainda não.

Digo ainda pois a virada do calendário traz promessas. Não aquelas listas de coisas que queremos ou desejamos para o próximo ano: economizar mais, perder peso, conseguir um trabalho novo, ler 52 livros, etc.. Essas promessas também existem, mas certamente serão descumpridas antes mesmo que possamos lembrar de tê-las escrito.

Falo das promessas que o futuro sempre nos traz. E chegar num ano novo é como chegar no futuro. É a sensação de quando chegamos no destino das férias, depois de passar horas num carro ou num avião, e todas as possibilidades de entretenimeno, descanso e diversão estão lá, e você está prestes a colocar suas mãos nelas. É uma sensação de otimismo misturado com alívio e esperança.

Começar um ano novo é começar uma promessa nova. É acreditar que podemos fazer as coisas de um modo diferente, nos tornarmos novas pessoas.

E tudo isso de fato, acontece. Em maior ou menor grau, você tendo consciência sobre isso ou não, não é possivel ser a mesma pessoa que você já foi. Pense nas coisas que aconteceram em 2024 na sua vida – as boas, as más e as neutras – e tente vislumbrar o quanto cada uma impactou você, suas crenças, seus valores, seus pensamentos ou suas atitudes.

Passou de ano na faculdade, viu sua cidade mudar ou manter seus políticos, ouviu os lançamentos musicais, leu notícias, considerou se acredita ou não na mudança climática, foi à missa, ao culto, à padaria ou ao supermercado, experimentou uma marca nova de requeijão que detestou. Andou pela praça, teve um amigo ou familiar que morreu, teve um amigo ou familiar que nasceu, raspou o carro no estacionamento, tomou chuva e chegou em casa ensopada, apenas para encontrar sua cama também na mesma situação, já que você esqueceu de fechar a janela.

Um ano novo é a expressão importante de algo que nos transpassa todos os dias: a possibilidade e a emoção de um novo dia, um novo momento, uma nova chance de viver de novo: sejam as mesmas coisas que já vivemos, numa nova situação, sejam coisas novas que vamos descobrir nas situações que já passamos.

Um ano novo contém mágica – a pura mágica que explode no céu em forma de fogos de artifício.

Bergdorf Goodman

Se você assistiu Sex and the City, certamente já ouviu esse nome. É uma loja de departamentos de luxo, que fica na “5th avenue” em “New York”. Nunca sequer pisei lá. Mas dado o advento da internet, me peguei passeando pelo site da loja, olhando peças de roupa que não me servem e nem posso pagar.

Tenho uma vida confortável, mas do alto da minha cadeira de escritório de servidora pública, usando uma jaqueta jeans com um rasgo no ombro – que eu tento me convencer que só dá mais personalidade para ela – penso em como apesar de não pertencer a essa realidade, eu prontamente aceitaria pertencer, se fosse possível.

Por mais fatores do que os eu consigo enumerar agora, talvez eu jamais compre sequer um lenço na Bergdorf Goodman. Eu nunca use um vestido Jason Wu, e nem use sapatos Gucci. (Mas se alguém souber de um lugar massa que venda algo parecido com essa Mary Jane Tabi da Maison Margiela, não se sintam tímidos em me enviar).

Em compensação, meu gosto por moda e pela auto expressão através dela sempre foi um desejo. Um desejo às vezes mais, às vezes menos realizado, mas sempre ali, presente. Certamente cerceado pelo meu tamanho – raras foram as vezes que eu realmente consegui vestir o que eu queria, com o caimento que eu queria, com a aparência que eu vislumbrava. Sempre tive um corpo gordo, ou mesmo quando não era gordo, sempre fui uma mulher grande, de pernas grossas. Moda foi um assunto de expressão, mas também de acomodação – o que eu consigo fazer com o que me cabe?

Depois de um dia completamente não memorável, lá em 2018, se não me falha a memória, meu namorado me disse que ele jamais tinha vestido algo desconfortável. Seja em termos de calçados – geralmente tênis – ou em termos de roupas, ele nunca tinha comprado uma blusa que só dava pra usar aberta, uma calça que tinha que usar com cinta modeladora, um vestido com uma fenda que precisava ser vigiada a noite inteira para não revelar demais. Ele nunca tinha comprado um sapato que pegava no dedinho, mas que tudo bem, porque dentro de um ou dois dias, ia lacear.

Eu olhava pra ele desacreditada. Como era possível? Essa não era a experiência normal de usar roupas? Como assim eu tinha me feito caber em roupas e sapatos pelos últimos 24 anos e isso não era completamente normal? Aceitável, ao mínimo?

Em descrença, eu não processei aquela informação na hora. Mas, olhando em retrospecto, aquela conversa mudou profundamente o modo como eu me vesti e comprei roupas nos últimos anos. E cara leitora, se você chegou aqui esperando uma história de superação, de como eu aprendi a lidar melhor com a moda e com o modo que eu compro as minhas roupas e coisas, eu sinto em lhe desapontar. Aquela conversa mudou profundamente o modo como eu entendo e vejo a moda possível – do dia a dia – mas para pior, acredito eu.

Aquela perplexidade somada a uma furiosa feminista que não entende como e por que a sua experiência de vida tem que ser menos confortável ou facilitada que a de seu namorado, passou por muitas transformações na vida prática (algumas coletivas, outras individuais): uma pandemia, uma maternidade, vários encontros e desencontros profissionais, umas várias mudanças de casa. Desde então, meu guarda roupas cresceu em número de shorts biker, leggings pretas, camisetas desajustadas e tênis confortáveis – muitos tênis confortáveis.

Depois da gravidez, especialmente, demorei para usar calça jeans. E mesmo assim, as calças jeans que uso, são as largas. Calças largas que não apertam em lugar algum. Skinny jeans? Nem sei o que é isso. Nem serviria na minha perna, também (que entre um lipedema e uma gravidez, engrossou ainda mais).

Me sinto amarga ao falara sobre isso. Domingo passado uma amiga muito querida veio me visitar. Ela é quase como uma antítese dessa minha amargura: tem uma bondade e uma positividade não tóxica que eu sinceramente não sei de onde brota. Não faço ideia de como ela aguenta conversar comigo e com a minha amargura, sem se deixar contaminar pela criticidade que faz de mim uma encantadora pessimista. De qualquer maneira, é essa amargura que eu sinto ao me vestir. Uma senhora ranzinza, dizendo que vai ficar desconfortável, que vai ficar ridículo, que vai ficar inadequado. Que eu não tenho criatividade o suficiente, que eu vou ter que ficar ajeitando a roupa de cinco em cinco minutos, que não é prático. Que o sapato vai apertar, que eu vou ter que carregar a criança, que eu vou ter que andar – então é inviável – que meus braços vão ficar de fora e as pessoas não vão me achar bonita, linda, ou gostosa. E ainda pior: eu mesma não vou me achar nem bonita, nem linda, muito menos gostosa.

Porque falo sobre a visão dos outros, mas sinceramente ligo pouco. O que me incomoda é a minha própria insatisfação e desdém com o que me visto, com como eu me visto. Com como eu me vejo, como eu vejo como eu me visto.

Se ser gostosa é uma questão de energia, cadê minha energia de gostosa? Ultimamente eu só ando sentindo uma energia de mãe cansada e ansiosa. Duas coisas que não combinam muito com saltos altos de luxo, vestidos chiques, lenços de seda, vestidos de grife.

Quantas mães cansadas compram na Bergdorf Goodman?

Amo as minhas escolhas, mas não acho que fiz as pazes com as minhas renúncias

1h42 da manhã. Estou há horas assistindo, ou melhor – devorando – Sex and The City na Netflix. Por várias razões, sinto uma miríade de sentimentos quando assisto esse seriado. Me sinto incrivelmente perto dessas quatro amigas, e ao mesmo tempo milhas e milhas longe.

Meu marido e meu filho estão dormindo. Até meu cachorro esta dormindo.  De centra forma, eu também estou. Me sinto incrivelmente conectada, invejosa dessa vida cheia de desejos, novidades, festas, animação, saltos altos e aquele cabelo fabuloso da Carrie. Me sinto incrivelmente distante de tudo isso com a minha vida no interior, meu corpo gordo, uma barriga com uma cicatriz de cesárea e cabelos que diariamente são contidos em grampos, rabinhos e presilhas.

De certa forma, como Carrie, estou escrevendo, é verdade. Isso me dá conforto, e me faz eu me sentir mais próxima dessa fantasia. Claro, é uma fantasia – não que a consciência desse fato me deixe menos presa a ela.

Não é uma questão de insatisfação com a minha vida. Talvez, se eu estivesse escrevendo isso no neu diário, e não num post na internet, esse paragrafo não existiria. Mas acho importante colocar isso aqui para dar conta desse caminho e pode voltar ao meu objetivo. Minha vida interiorana é boa. Tenho um marido que me ama, que me respeita, e é completamente recíproco. É meu melhor amigo, e nossas principais brigas têm sido pela falta que essa parte faz, agora que estamos ainda completamente endoidecidos com as responsabilidades da parentalidade. Tenho um filho lindo, que me deixa maluca numa proporção incrivelmente maior do que me traz alegria, mas que eu amo de uma maneira completamente primitiva, instintiva, através de diferentes maneiras, desde que sua chegada foi anunciada com um teste que dizia: “grávida. 2-3 semanas”. Tenho uma casa confortável para morar, minha família perto, e amigos e amigas queridas, que claro, vejo infinitamente menos do que eu gostaria, mas que me são muito caros.

Mas a questão não é a vida que eu tenho agora, mas é a vida que eu não tenho mais,  a vida que eu nunca tive, e a vida que eu gostaria de ter, sem abrir mão da minha atual.

Claro, esse já foi um tema de debate extenso entre eu e Marla, a minha psicóloga (que inclusive tem uma vida muito parecida com a da Carrie – na minha cabeça -, mas os episódios da vida dela são no nordeste brasileiro, e não em Manhattan). Mas é um debate que sempre, ou quase sempre, revolta e revoa sobre a minha necessidade de abraçar o mundo sem abrir mão de nada.

Acho que essa fantasia, essa fic onde eu faço parte de uma história com drama e comédia não literal – alô alívio cômico – sou magra, consigo usar saltos e anda quilômetros, usar maquiagem até quando estou apenas escrevendo em casa, tendo encontros com orgasmos fáceis e sendo incrivelmente bem sucedida no trabalho, enquanto ainda mantenho a minha vida atual, é uma ganancia e um luto não processado das minhas aventuras vividas, promessas e expectativas sociais e desejos alguns recalcados.

Uma psicóloga que eu tive há alguns anos, me disse uma coisa uma vez que é muito óbvia, mas que ficou comigo ao longo dos anos, pelo jeito e pelo olhar marcado que ela me lançou na hora: cada escolha, uma renúncia.

Amo as minhas escolhas, mas não acho que fiz as pazes com as minhas renúncias (e talvez não queira fazer).