Estava procurando uma foto 3×4 nos meus arquivos online. Vasculhando pastas antigas, encontrei fotos de uns 10 anos atrás. Os sentimentos ficaram muito misturados. Eu era muito bonita. Estava no relativamente no início da minha vida sexual, e todo aquele tesão, aquela disposição e desejo completamente pulsantes, são visíveis. Pelo menos pra mim.
Não quero soar como uma pessoa tragicamente nostálgica, escrevendo sobre como, um dia, as cores eram mais vivas e a vida era melhor. Longe disso, a Theodora de hoje é uma mistura entre a que já fui nessas fotos e as experiências e decisões que passei ao longo dos anos. Não se trata de glorificar o passado condenando o presente e lamentando o futuro. Se trata de celebrar o que um dia eu já vivi e como eu existo e coexisto com todas as versões de mim mesma.
Mas admito que as transformações durante esses anos foram muitas, e me peguei sentido uma certa tristeza vazia em perceber que aquela moça bonita das fotos era eu, mas não é mais.
Minha construção social enquanto mulher me faz lamentar um corpo que já não mais tenho. Depois de muitos quilos adicionados ao meu corpo, uma pandemia, uma gravidez, e anos de ansiedade desmedida, sou fisicamente outra pessoa. Mas não apenas. A vida se tornou mais complicada, mais complexa, mais demandante e menos flexível. Hoje tenho mais repertório, mais amor, mais inteligência e um filho maravilhoso que eu não trocaria por nada. Mas também tenho mais responsabilidades, mais temores, mais questões.
Me pergunto: de onde, então, brota a leve tristeza que me faz contemplar as fotos antigas? Seria ela uma tristeza boa, daquelas que te trazem a consciência dos vários lugares que você já pertenceu? Se eu não quero viver de novo aquela vida que vejo estampada nas fotos, porque o luto por ela ainda persiste?
Sinceramente, acredito que o luto persiste não pelo passado, mas pelo futuro. Eu definitivamente não sou uma das pessoas que vê o copo meio cheio. Entre crise climática, crise econômica, crise política e uma ameaça constante de “você não vai conseguir se aposentar”, é difícil ter esperança no futuro. Claro, há uma responsabilidade clara e ativa sobre mim mesma de construir o futuro que eu quero pra mim, pelo menos num certo nível individual. Mas nem só como indivíduo vive um humano. As perspectivas coletivas se amontoam de uma maneira que eu não só me sinto cética sobre fazer a diferença, como também rio meio abobada da situação, num riso desesperançado de quem não daria conta de tratar do assunto de maneira completamente séria, e precisa do alívio cômico para suavizar o tom da conversa.
Enquanto minha fé no futuro se abala, a tristeza pelo luto do passado e pelo luto do futuro brotam em mim toda vez que eu vejo minhas belas fotos antigas, e meu superego me diz que eu era mais magra, mais bonita e mais esperançosa.