contornos e limites

Já falei algumas vezes na terapia sobre os contornos da subjetividade do indivíduo. De maneira específica, sobre os contornos da minha própria subjetividade. Como eu defino, descrevo, enxergo, delimito a minha subjetividade?

Desde o início do ano eu fui investigar de maneira objetiva se eu tinha uma neurodivergência. Se, essencialmente, meu cérebro processava a realidade de uma maneira não neurotípica. Depois de alguns testes que se assemelhavam a um ratinho procurando comida um labirinto, eu recebi um laudo que dizia exatamente o que eu suspeitava ser: neurodivergente.

Foi um relatório de mais ou menos 20 páginas, e é claro que ele me dizia mais do que isso. Era um laudo que mapeava todo o meu funcionamento cognitivo. Ali eu vi refletidos alguns anos de descobertas construídas na terapia. Foi um sentimento muito curioso, com quase nenhuma ação prática: eu dei um nome para algumas coisas, mas as coisas continuam ali como sempre estiveram, e eu tenho que lidar com elas da mesma maneira que sempre lidei.

Mas na verdade essa é uma grande falácia, não é? Não há a menor possibilidade de ser a mesma coisa. E não há a menor possibilidade de eu lidar com as coisas da mesma maneira. Primeiro, porque as coisas mudam o tempo todo. O tempo todo. Segundo, porque, como eu bem aprendi nesses anos de terapia, a forma como você elabora as coisas com a sua linguagem altera a sua percepção sobre essa coisa.

Me reconhecer como neurodivergente, com o passar do tempo, foi como um abraço: eu não era estranha, chata, inconveniente. Eu só sou diferente. E reconhecer essa diferença me trouxe mais pertencimento do que apartamento.

Entender a minha neurodivergência me permite dar mais voz e importância para os meus sentimentos, sensações, vontades e pensamentos. Me dá uma leve ideia de como é não questionar a minha adequação o tempo todo.

Entender a minha neurodivergência me permite reconhecer novos contornos. Me permite dar mais voz a mim mesma. Parte de mim se sente desolada por ter que ter tido um laudo pra isso – para que eu me permitisse ter alguma voz. Mas ao mesmo tempo penso que sou apenas uma mulher latinoamericana, ou como eu repito pra mim mesma o tempo todo: hei de reconhecer que sou apenas uma mulher do meu tempo, com todas as suas capacidades e limitações.

Mas dar mais voz a mim mesma não significa dar voz a mim mesma sempre. Longe disso. Eu inclusive me surpreendo sempre quando consigo reconhecer as pequenas-grandes coisas que me atravessam.

Essas descobertas foram o que me trouxeram para esse texto. Venho me descobrindo uma pessoa com várias rigidezes que eu acomodo diariamente, sem validá-las, dando outros nomes que deixem o desconforto mais socialmente palatável: “ah, é que eu sou fresca com comida mesmo” (quando na verdade o cheiro do lugar que ficou impregnado na minha roupa me perturbou a tarde inteira, provocando um sentimento de agonia que só iria passar depois de um banho); “eu sou teimosa” (quando na verdade eu não via nenhum motivo para concordar com você, já que seu argumento era fraco e não se sustentava, ou você não soube me explicar porque ele era mais sólido que o meu);  “Ih, não é nada… Todo mundo erra, agora é bola pra frente” (quando eu não conseguia aceitar uma conduta moral ou eticamente duvidosa que eu fiz, e estava completamente focada e não conseguia abstrair do valor pretensamente ofendido, mas a pessoa não entendia ou não queria mais falar sobre aquilo).

Mas, contornar o desconforto para não incomodar o meu entorno, não anula o desconforto interno – como sempre achei que fosse possível, como se aquele desconforto fosse minimizado, ele desapareceria de dentro de mim.

Ledo engano. O desconforto não sentido, não anunciado, não denunciado, não autorizado, faz o que consegue fazer: desorganiza. Se ele não cabe aqui, onde cabe? O que é aqui, então? O que cabe aqui?

No acúmulo de desconfortos, no acúmulo de desautorizações de existência, os contornos se desfazem. E a desorganização se instala de um jeito que desconforta completamente.

Aprendi que uma das características minhas que posso atribuir à minha neurodivergência é a intensidade emocional (que eu sempre dei conta de modular externamente para não causar aborrecimentos desnecessários a terceiros; *coloca a máscara de palhaça*).

A intensidade emocional faz com que essa desorganização seja praticamente onipresente e, de repente, todas as suas escolhas são questionadas, e suas ações ficam suspensas. Você entra num estado de sobrevivência funcional onde todas as suas energias são alocadas para você funcionar minimamente, e performar as atividades estritamente necessárias: comer, trabalhar, cuidar dos filhos e cachorros.

Mas a vida objetiva que segue esconde uma vida subjetiva que fervilha, que consome. Uma subjetividade em efervescência que soa muito melhor do que faz sentir. E no desespero por contornos, várias artimanhas podem ser empregadas: comida, sexo, sono, carência, compras. Qualquer coisa que dê limites para esse ser que transborda.

No fim, essa desorganização se transforma em reorganização – nem sempre melhor do que a anterior, nem sempre mais organizada ou esclarecida. Mas o estado de desorganização é tão incômodo, que qualquer que seja a organização posterior, ela será menos sofrível que a suspensão.

A organização, desorganização e reorganização sempre acontecem. É quase que um processo cíclico que se repete enquanto formos capazes de perceber a nossa existência. Mas nunca ocorre da mesma maneira, e sempre resulta em algo diferente. Talvez melhor do que um círculo, a imagem seja a de uma espiral, que altera o seu raio de acordo com as possibilidades – de sentir, de perceber, de elaborar.

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